PUB

Quem teve a felicidade de nascer e viver os primeiros anos da sua vida, para mim os mais marcantes na formação da minha personalidade, num jardim, como é o Vale das Furnas, desde cedo aprende a conviver com a natureza e os seus cheiros mais profundos. De algum modo esta experiência é sentida nas nove ilhas dos Açores, ainda que com intensidades e variedades comuns, mas também diferentes.

Estes cheiros, que se confundem com uma vasta pluralidade de perfumes, são nos transmitidos por plantas, árvores e flores, que nos presenteiam ao longo do ano, sendo que algumas são endêmicas, mas muitas são invasoras.

Comecemos em janeiro com a floração da invasora árvore do incenso, que se estende até ao mês de abril, esta espécie Pittosporum undulatum, que nos Açores servem para fazer abrigos, mas também um ecossistema de luxo para as abelhas, dando origem a um excelente mel, e naquela época do ano produz um cheiro fantástico.

PUB

Mesmo nos dias de hoje ao desembarcar no Aeroporto de Ponta Delgada ao anoitecer, entre janeiro e maio, sou recebido na ilha com um perfume intenso que me transporta à infância.

Quase em paralelo, temos os magníficos cheiros das endêmicas do Jasmim-dos-açores (Jasminum azoricum), que o Professor Raimundo Quintal diz ser na realidade endêmico da Madeira (e que as variedades existentes nas Furnas são exóticas) e do Lírio-branco-dos Açores (Lilium candidum), sendo que a primeira presenteia-nos com o seu perfume da primavera ao outono, enquanto que a segunda concentra o seu cheiro entre maio e agosto.

Outra invasora a Conteira (Hedychium gardnerianum) que tantos prejuízos provoca por estes Açores fora, nos meses de julho a agosto enchem de perfume as estradas da Região, sobretudo ao amanhecer e ao anoitecer. Servindo para ornamentar casas e anexos, bem como enfeitar os locais das matanças dos porcos e mesmo as ruas. Quando era criança fazíamos molhos de chupos da flor da conteira e deliciavamo-nos a chupar um líquido açucarado que lá se encontra.

Um outro cheiro de infância que me encantava era o da flor da laranjeira e das maçãs dos muitos pomares que existiam no Vale das Furnas.

Estes foram alguns dos cheiros e perfumes que enriqueceram a minha presença no Vale das Furnas, mas também nos Açores, a que acrescento os cheiros da erva e relva acabada de cortar e principalmente o perfume do cheiro do mar da Ribeira Quente, que sempre achei diferente do “dos outros mares”.

Quanto aos cheiros novos que me dizem serem fruto do “progresso” e que eu bem dispensava, identifico os gases e fumos frequentes produzidos por tubos de escape de viaturas a circularem nas nossas cidades, vilas, aldeias e estradas, o cheiro nauseabundo de algumas pocilgas, e o fedor provocado por algas que vão dando às nossas costas, portos e praias.

Quanto às pocilgas, fui criado com porcos no quintal, alimentados com “lavagem “, inhame para porcos, milho e vegetais e nunca senti o cheiro horrível que é frequente sermos presenteados nos dias de hoje.

Estes maus cheiros novos são uma verdadeira calamidade e que contrasta com os cheiros característicos e dominantes da nossa natureza e meio ambiente.

PUB