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Na semana em que este texto é publicado, debatem-se as memórias de 1976, pela visão de um grupo heterogéneo de pessoas, em vários momentos, e com o apadrinhamento de instituições muitas vezes antagónicas na sua pública figura.

O pretexto é o Festival Rua Direita, que esta semana já vai na sua segunda ronda, e que este ano se dedicou aos 50 anos da Autonomia, com um trabalho sublime na maneira como a Cultura pode ser ferramenta da democracia.

A Associação Cultural Cães do Mar é uma das agentes culturais mais ativas na nossa Região, continuando a enfrentar as intempéries da má gerência técnica da Direção e política da Secretaria Regional, e as catastróficas tentativas de solução, que só por si dariam resmas de artigos de opinião. Vão dar mais algumas, um dia.

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Mas, hoje a escrita é sobre 1976 e mais concretamente sobre o caminho trilhado desde então. Esta semana, através da parceria entre a Cães do Mar e a Lar Doce Livro, convidaram-se várias mulheres para falar de cinquenta anos de sexismo no Parlamento Açoriano, tema que algumas pessoas pensam resolvido, mas que regressou de forma violenta e ofensiva, com sucessivas tentativas de o tornar tabu.

Importa relembrar que o sexismo manifesta-se de diversas formas, podendo surgir através de estereótipos que associam a liderança política a características consideradas masculinas, da desvalorização das competências das mulheres, da maior exigência sobre o seu desempenho ou da atenção desproporcionada dedicada à sua aparência, idade ou vida pessoal, aspetos raramente utilizados para avaliar os seus colegas homens.

E é exatamente acerca disso que, na Lar Doce Livro, o debate incide: em torno da forma como alguns homens usam da linguagem e do preconceito para diminuir as mulheres que se sentam ao seu lado, de igual para igual. Imagino que se fale também das mulheres que consentem, e muitas vezes alimentam essa realidade. Vozes de vários grupos partidários juntam-se para recordar o que é ser mulher naquelas bancadas. Passei por isso, com uma intensidade que ainda hoje me atormenta, mesmo que nunca me tenha vergado às bocas sobre os malefícios da menstruação, de histerismo e outras atrocidades do género.

Sempre pensei em Natália, Zuraida, Andreia e em tantas outras que enfrentaram o sexismo e que elevaram os debates. Hoje temos a Marta, a Sandra e a Sabrina, por exemplo. Só que não é suficiente. Nunca será, enquanto se mantiver uma voz que seja a deitar a mulher ao chão, não pelas ideias defendidas, mas por preconceitos e estereótipos, muitas vezes proveniente pela voz do ressabiadíssimo conservador das bancadas que nunca souberam abraçar as liberdades de Abril.

50 anos depois de 76, há muita coisa para continuar a discutir, memórias importantes para recordar e uma longa lista de desafios para ultrapassar. Da Rua Direita, do seu programa estimulante, nas Asas do Açor, para derrotar os inimigos da Liberdade que andam por aí e para enobrecer as mulheres que ousam desafiar os preconceitos.

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