O futebol sempre foi mais do que um jogo. Move paixões, mobiliza milhões de pessoas e representa identidades nacionais. Talvez por isso, nunca tenha escapado ao interesse da política. O problema começa quando a política deixa de assistir ao jogo e decide ser parte ativa do mesmo.
A recente polémica em torno da decisão da FIFA de suspender o castigo aplicado ao avançado norte-americano Folarin Balogun, depois de uma intervenção pública do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abriu um debate que ultrapassa largamente um simples cartão vermelho. Trump confirmou que contactou o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para pedir uma revisão da suspensão do jogador, posteriormente levantada ao abrigo do artigo 27.º do Código Disciplinar da FIFA. Embora a FIFA sustente que a decisão foi tomada pelos seus órgãos disciplinares independentes e dentro das regras existentes, a sucessão dos acontecimentos levantou legítimas e inevitáveis dúvidas sobre a perceção de independência do processo.
É precisamente essa perceção que está em causa e que é o foco deste artigo. No desporto de alto rendimento, a confiança vale tanto como as regras. Não basta que uma decisão seja legal, sendo que é indispensável que pareça blindada e imparcial. Quando um chefe de Estado admite ter intervindo junto da entidade organizadora de um evento e, pouco depois, essa mesma entidade altera uma sanção disciplinar, a suspeita é instalada de uma forma que me parece ser legítima, independentemente da fundamentação jurídica apresentada.
A reação não tardou. Desde logo, a UEFA classificou a decisão como incompreensível e alertou para os riscos que representa para a integridade das competições. A Federação Belga contestou igualmente o desfecho do processo, tendo considerado que a igualdade competitiva ficou comprometida.
O problema, contudo, parece-me ser maior do que este caso isolado. A FIFA constitui grande parte da sua legitimidade na ideia de que o futebol deve permanecer autónomo face aos governos. Ao longo dos anos, mostrou-se extremamente rigorosa e implacável com interferências políticas em diversas federações nacionais, tendo sempre exigido independência institucional. É precisamente por isso que qualquer indício de tratamento diferenciado em função de uma determinada influência política tem um efeito devastador sobre a sua credibilidade.
Não está em causa saber se o jogador merecia ou não cumprir a suspensão. Essa é, de facto, uma discussão técnica, própria de instâncias disciplinares criadas para o efeito. O que está em causa é um princípio de universalidade das regras que garantem igualdade entre competidores. O Mundial de futebol é o maior palco do futebol Mundial, veja-se, por exemplo, a forma como a competição mudou a vida do cabo-verdiano Vozinha. Se os adeptos começarem a acreditar que as decisões disciplinares podem ser condicionadas por relações duvidosas entre dirigentes desportivos e políticos, perde-se de forma irreparável, a confiança na competição.
O futebol sempre conviveu com pressões económicas, com interesses comerciais e com disputas de poder. Mas existe claramente uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada e essa linha foi amplamente referida neste artigo. Não pode haver qualquer interferência direta da política nas decisões desportivas. Porque quando o poder político entra em campo, quem perde é o futebol, sempre.




