Nos dias que antecederam os 250 anos de independência dos Estados Unidos, Trump organizou um conjunto de eventos de qualidade duvidosa, onde quase ninguém apareceu, para homenagear as tendências mais infelizes daquele povo. No dia do aniversário, propriamente dito, quem lá esteve foi uma manifestação de milhares de pessoas com a cara tapada, envergando bandeiras e cânticos nacionalistas. O grupo, designado por “frente patriótica” marchou pelas ruas da capital da nação, desafiando minorias e apoiando o monstro que se senta na Casa Branca. Para a história ficou imortalizada a fotografia de uma mulher negra, a viajar num transporte público, rodeada de rostos caucasianos, parcialmente escondidos pelas máscaras, a caminho de uma concentração fascista.
Paralelamente, continuou o mundial de futebol masculino nos Estados Unidos, bem como nos países vizinhos. A xenofobia e o racismo dominante também ali se sentiu, com problemas de vistos a impedir a presença de muitas pessoas que não conseguiram entrar na decadente terra de Trump. Por outro lado, foi também no futebol que encontramos motivos para sorrir, com a prestação de várias seleções menos habituadas aos grandes palcos, provenientes de países historicamente oprimidos, como foi o caso do Haiti, do Irão, de Curaçau ou, claro está, de Cabo Verde.
Na passada sexta-feira, Portugal agarrou-se à televisão, ao lado de angolanos, guineenses, moçambicanos, brasileiros, timorenses, e vibramos pelos Tubarões, que estoicamente aguentaram a onda da Argentina com a força de um povo, esquecendo a xenofobia e o racismo que cresce por cá, pois não só nos Estados Unidos, a decadência se instalou. Em 2025, dados trabalhados pela Universidade Nova de Lisboa apontam para uma percentagem significativa de pessoas a viver em Portugal que já se sentiram discriminadas pela sua cor, pelo seu sotaque, pela roupa ou por outras marcas da sua ascendência.
Por isso mesmo, o texto desta semana é uma nota de alegria, pois a seleção de Cabo Verde recordou ao mundo a importância de saber olhar para lá dos preconceitos instalados nas redes sociais e nas bancadas parlamentares dos que odeiam. Naquela madrugada de sexta para sábado, quando já era dia de aniversário na América, o legado de Cabo Verde não foi apenas uma caminhada memorável, mas sim a certeza de que os sonhos não perguntam pelo tamanho do país, servindo de prova que a humildade continua a ser a maior força que devemos transportar. Habituámo-nos a acreditar que as grandes seleções venciam apenas porque a sua história assim o ditava. Cabo Verde quebrou esse paradigma. Não destronou apenas adversários. Destronou preconceitos. Mostrou que o peso de um emblema vale pouco quando do outro lado existe uma equipa onde todos correm pelo companheiro, onde ninguém joga para as estatísticas e onde cada minuto é vivido como se fosse o último. Cabo Verde deu-nos uma lição de humildade, pois a verdadeira força nunca precisou de fazer barulho nem de subestimar ninguém. Enquanto alguns viviam da fama construída durante décadas, Cabo Verde construiu respeito a cada noventa minutos.
Será o exemplo de que o amor à camisola ainda consegue vencer a lógica. E será a lembrança eterna de uma geração que fez um povo acreditar que nenhuma ilha é pequena demais para tocar o mundo. Obrigada, Tubarões Azuis. Não caíram de pé. Não caíram. Engradeceram o mundo, relembrando-nos de que o futebol continua a ser muito mais do que um jogo e do que a cor da pele.




