Há tragédias que, pela sua dimensão, desafiam qualquer tentativa de descrição. A Venezuela vive, atualmente, uma delas.
A tragédia que assolou o país e que deixa milhares de mortos, milhares de feridos e dezenas de milhares de pessoas sem casa, numa das maiores catástrofes naturais da história recente daquela região do planeta é bem ilustrativa do cenário de destruição, medo e perda que assola o país. Mas por maiores que sejam os números, a verdadeira dimensão da tragédia mede-se de outro modo. Mede-se nos pais que continuam à procura dos filhos desaparecidos. Nas famílias que aguardam novidades junto dos escombros. Nos profissionais de saúde que trabalham muito além dos seus limites. Mede-se, sobretudo, na angústia daqueles que perderam tudo em poucos segundos.
Para quem observa à distância, existe sempre a tentação de transformar estas tragédias em estatísticas passageiras, rapidamente substituídas pela próxima notícia. Mas as vítimas continuarão ali quando as câmaras partirem. Continuarão ali quando os títulos desaparecerem das primeiras páginas dos jornais. O luto, para muitos, durará uma vida inteira.
Talvez seja precisamente por isso que a dor da Venezuela também nos deve dizer respeito. Porque a solidariedade não conhece fronteiras, idiomas ou nacionalidades. Porque qualquer sociedade é, de facto, vulnerável perante a força da natureza. E porque num mundo tantas vezes dividido por interesses, conflitos e rivalidades, momentos como este recordam-nos aquilo que existe de mais essencial… antes de sermos portugueses, espanhóis ou venezuelanos, somos seres humanos.
Hoje, a Venezuela não precisa apenas de ajuda material, equipas de resgate ou apoio internacional. Precisa também de algo mais simples, mas igualmente importante. Precisa que o mundo não desvie o olhar. Porque nenhuma tragédia é verdadeiramente distante quando envolve a dor de milhares de famílias.




