Recentemente, foi tornada pública uma listagem de pessoas que terão sido consideradas alvos a abater, por uma organização de extrema direita, acerca da qual já havia escrito. Refiro-me ao Movimento Armilar Lusitano, numa evidente tentativa de cunhar a sigla MAL, o que não deixa dúvidas em relação ao nível de moral e inteligência que para ali vai.
Trata-se da mais recente evolução de grupos fascistas que povoaram o nosso país, em décadas recentes, sendo na sua maioria, liderados pelos descendentes dos que não foram adequadamente punidos no pós 25 de abril. Muitas famílias com ligações enraizadas no regime de Salazar limitaram-se a continuar a sua vida, baixando a cabeça e fingindo que esta coisa da democracia não era nada com elas, até ter tempo para reagrupar e preparar nova investida para tomar conta do país. Exemplo máximo dessa fornada é Pacheco de Amorim, cujo legado familiar está bem estudado pelo livro do Miguel Carvalho, e que agora comanda uma parte do partido do Ventura.
Acontece que a lista elaborada pelo MAL é um menu de variedades que mete no mesmo saco Montenegro, António Costa, Paulo Raimundo, Mariana Mortágua, mas também Ricardo Araújo Pereira, Raquel Varela e outras personalidades da nossa praça pública. Há para quase todos os gostos, menos os mais economicamente liberais, e os fascistas, claro. Sem esquecer o facto, de nada curioso, de que o primeiro alvo, segundo a investigação desencadeada pelas autoridades, seria um imigrante do Bangladesh que ousou confrontar André Ventura durante uma ação de campanha eleitoral.
Há que pensar de forma concreta neste fenómeno, por dois motivos. Primeiro, porque a recente “humilhaçãozita” da Spinumviva na Assembleia parece não ter sido suficiente para Montenegro perceber que não é o salvador que acha que é. Ventura deixou claro que o trabalho do Luís só lhe irá favorecer a ele, e que quando puder vai queimar todas as pontes com os que não quiserem passar para o seu partido, e julgar os seus corpos em praça pública.
Segundo, porque a listagem publicada coloca no mesmo patamar forças muito distintas, ajudando a normalizar a narrativa da extrema direita, que nos quer vender que tudo o que não seja igual a eles é farinha do mesmo saco. Às dezenas de jornalistas que falaram da lista, não me apercebi de explicações sobre a divisão, não só ideológica, mas até mesmo moral, entre um humorista a fazer o seu trabalho, um líder sindical, uma investigadora independente ou uma dirigente partidária, por oposição ao neoliberalismo da Spinumviva, que é lenha para a fogueira do fascismo. Esperei que publicassem a lista dos nomes que integram ou apoiam o MAL, e onde, segundo consta, estará o pai da Matias, atual propagandista favorita do Ventura.
A listagem que saiu é mais um sinal do enfraquecimento da nossa sociedade democrática. Aqui, pelas ilhas, já se ouve acerca de casos de perseguições, vigilâncias ativas e ameaças a jornalistas, políticos e ativistas da nossa praça.
Esta onda não será travada facilmente, e já vamos a meio da sua violenta rebentação. É tempo de resistir. Tempo de relembrar que a luz da esperança é alimentada pelo fogo da coragem. Derrotamos o pacote laboral, desta vez, mas é preciso derrotar muito mais. É preciso gritar a uma só voz que, contra este MAL, só o bem comum triunfará.




