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Há momentos em que os temas mais importantes para o futuro de uma região passam quase despercebidos.

Enquanto a atenção pública se concentra, legitimamente, na gestão do dia a dia, há decisões que começam a ser preparadas longe dos holofotes e que acabarão por influenciar profundamente o nosso futuro coletivo.

A eventual revisão do enquadramento dos auxílios de Estado aplicáveis às Regiões Ultraperiféricas é um desses casos.

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Recentemente, a Comissária Europeia Maria Luís Albuquerque revelou que a Comissão Europeia se encontra a analisar e ponderar alterações neste domínio.

A referência foi breve.

Mas as implicações podem ser profundas.

O que mais me surpreendeu não foi a existência desta reflexão.

Foi a sensação de que um tema com esta relevância estratégica permanece relativamente ausente do debate regional, apesar das potenciais implicações que poderá ter para setores fundamentais da economia açoriana.

Num momento em que se discute o futuro enquadramento dos auxílios de Estado para as Regiões Ultraperiféricas, seria expectável encontrar um acompanhamento particularmente atento por parte daqueles cuja missão é defender os interesses permanentes da Região junto das instituições europeias.

Estamos a falar de um tema que poderá influenciar diretamente a mobilidade aérea da Região, o futuro da SATA, a capacidade de atrair investimento, a competitividade das empresas açorianas e as condições de crescimento da nossa economia.

Estamos a falar da forma como os Açores se posicionarão na Europa das próximas décadas.

Por isso, esta não é uma discussão técnica.

É uma discussão estratégica.

É uma discussão sobre desenvolvimento.

É uma discussão sobre futuro.

Ao longo das últimas décadas, os Açores beneficiaram significativamente da integração europeia.

Os fundos comunitários permitiram modernizar infraestruturas, qualificar recursos humanos, melhorar serviços públicos e criar condições de progresso que seriam difíceis de alcançar por outras vias.

Mas precisamente porque esse percurso foi bem-sucedido, importa ter a coragem de reconhecer uma realidade.

O modelo que nos trouxe até aqui pode não ser suficiente para nos levar mais longe.

Os Açores já aprenderam a captar fundos.

Agora têm de aprender a captar investimento.

Porque o próximo ciclo de desenvolvimento da Região não se fará apenas com apoios.

Far-se-á com investimento, inovação e ambição.

Far-se-á com empresas mais competitivas.

Far-se-á com maior produtividade.

Far-se-á com mais capacidade para atrair talento e fixar os nossos jovens.

Far-se-á com a criação de riqueza.

E far-se-á também com uma participação mais ativa nos processos de decisão europeus.

É precisamente aqui que a discussão sobre os auxílios de Estado assume uma relevância extraordinária.

As regras europeias não são neutras.

Condicionam a forma como as regiões competem.

Influenciam a capacidade de apoiar empresas.

Determinam margens de atuação dos governos.

Criam oportunidades ou limitações para a atração de investimento.

Por isso, qualquer alteração neste domínio exige atenção máxima por parte dos Açores.

Mas esta reflexão obriga-nos também a olhar para a forma como a Região se posiciona junto das instituições europeias.

Hoje somos muitas vezes tentados a medir a relevância da representação da Região junto das mais diversas instituições, nomeadamente europeias, pela notoriedade que consegue gerar ou pela frequência com que surge no espaço público.

Mas a influência que verdadeiramente transforma os Açores raramente se mede dessa forma.

Mede-se pela capacidade de identificar antecipadamente oportunidades e ameaças.

Mede-se pela capacidade de construir alianças.

Mede-se pela capacidade de participar nos processos de decisão antes de estes estarem concluídos.

Mede-se pela capacidade de colocar o bem comum acima do protagonismo individual.

E mede-se, sobretudo, pelos resultados alcançados para a Região.

É precisamente em matérias como os auxílios de Estado, a mobilidade, a competitividade, o investimento ou a inovação que essa influência faz a diferença.

Os Açores continuarão, naturalmente, a defender os seus setores tradicionais e os mecanismos associados à ultraperiferia.

E bem.

Essa continua a ser uma missão importante.

Mas não pode ser a única.

O futuro dos Açores não se constrói apenas a defender o que temos.

Constrói-se também a criar o que ainda não temos.

Constrói-se através da atração de investimento produtivo, da criação de empresas competitivas, da captação de talento, da geração de conhecimento e da abertura a novas áreas de atividade económica.

Constrói-se afirmando os Açores como uma região inovadora, sustentável e atrativa.

E constrói-se demonstrando que desenvolvimento económico e preservação ambiental não são objetivos incompatíveis.

Pelo contrário.

Os Açores têm todas as condições para transformar a sustentabilidade num fator de competitividade, diferenciação e criação de valor.

Temos recursos naturais únicos.

Temos qualidade de vida.

Temos localização estratégica.

Temos talento.

O que falta é transformar essas vantagens em desenvolvimento económico sustentável.

E isso exige visão.

Exige ambição.

Exige influência.

Exige capacidade de antecipar o futuro em vez de apenas reagir ao presente.

Porque o maior risco para uma Região ultraperiférica não é estar longe da Europa.

É estar longe das decisões que irão moldar o futuro da Europa.

E esse é um risco que os Açores não se podem permitir correr.

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