O chumbo da reforma laboral pelo Chega não é apenas um episódio parlamentar. É, sobretudo, um teste à coerência de um partido que construiu boa parte do seu crescimento político na denúncia dos bloqueios do sistema, mas que se vê agora confrontado com as responsabilidades de quem passou da contestação para a influência.
Em democracia, votar contra é tão legítimo como votar a favor. O problema nunca esteve no exercício desse direito. Surge quando a oposição deixa de ser explicada por uma visão clara do país e passa a ser justificada apenas pela conveniência do momento.
Durante anos, o Chega apresentou-se como sendo um partido que queria romper com as lógicas tradicionais e promover reformas profundas. Criticou, energicamente, a esquerda pela proximidade aos sindicatos, acusou os partidos do centro tradicional de falta de coragem reformista e prometeu colocar os interesses dos trabalhadores e da economia acima de quaisquer cálculos partidários. Ora, é precisamente à luz desse discurso que me parece que a posição do partido deve ser cuidadosamente analisada.
A rejeição da alteração da lei laboral pode ser interpretada como uma demonstração de independência face ao Governo. Mas também levanta uma pergunta inevitável, que tem a ver com a alternativa. Afinal, qual é?
Porque governar, ou aspirar a isso, não pode ser apenas dizer não. É necessário assumir custos políticos, é necessário escolher. E é precisamente aqui que muitos partidos populistas tendem a encontrar grandes dificuldades. Enquanto forças de protesto, prosperam através da indignação popular. Quando são chamados a influenciar decisões concretas, descobrem que a realidade pode ser mais complexa e exigente do que slogans e frases vazias.
O Chega tem procurado apresentar-se como um partido diferente, livre dos condicionamentos ideológicos tradicionais. No entanto, episódios como este revelam uma clara ambiguidade que se torna cada vez mais difícil de ignorar. Afinal, que partido querem ser? Reformista ou conservador? Liberal ou protecionista? Próximo das reivindicações laborais ou crítico das estruturas sindicais? Antissistema ou parceiro essencial e indispensável à estabilidade política?
Estas perguntas não são meramente um exercício académico. São sim questões que qualquer partido com ambições de poder tem de responder. Porque a política não se faz apenas de denúncias, mas sim de escolhas que acarretam consequências. Talvez possa ser injusto exigir ao Chega a maturidade de partidos com décadas de experiência governativa. Mas é inevitável exigir-lhe coerência. Quanto maior é a representação parlamentar, maior é a responsabilidade.
A democracia precisa de oposição. É algo essencial para aferir a qualidade da mesma. A democracia precisa de partidos que fiscalizem, que questionem e, quando necessário, travem decisões com as quais discordam. Mas precisa, acima de tudo, de forças políticas capazes de dizer aquilo que propõem.
Na minha opinião, há uma diferença grande e basilar entre ser contra tudo e ser capaz de construir alguma coisa. E essa diferença acaba sempre por separar os partidos de protesto dos partidos com ambições governativas.




