As comemorações do Dia de Portugal, na Ilha Terceira, tiveram este ano um tom diferente. Não se limitaram à evocação do passado, nem se ficaram pelo simbolismo habitual. Tanto Miguel Monjardino, presidente da comissão organizadora, como o Presidente da República, António José Seguro, procuraram transmitir uma mensagem mais profunda de que Portugal vive num tempo de incerteza e que a liberdade, por si só, não dispensa preparação, responsabilidade e coragem.
A escolha dos Açores para as celebrações não foi inocente. Num ano em que se assinalam cinquenta anos das autonomias regionais, celebrar o 10 de Junho no meio do Atlântico foi também uma forma de recordar que Portugal é mais do que o continente europeu. É um país atlântico, com uma posição geográfica privilegiada e com responsabilidades acrescidas num mundo cada vez mais marcado pela competição estratégica.
Foi precisamente sobre esta dimensão que Miguel Monjardino insistiu. Ao afirmar que a coragem é liberdade e que a liberdade é coragem, o especialista em relações internacionais deixou uma ideia simples, mas poderosa. Uma nação livre não pode viver no medo, mas também não pode viver na ilusão. Tal como os grandes surfistas da Nazaré se preparam para enfrentar as ondas, também os países precisam de preparação, capacidade de antecipação e de um ecossistema de apoio que lhes permita enfrentar os riscos do presente.
Num contexto internacional marcado por guerras, pela crescente rivalidade entre grandes potências mundiais, e pelo regresso das questões de defesa ao centro da agenda europeia, estas palavras não devem ser vistas como um mero exercício retórico. Durante demasiado tempo, as sociedades ocidentais habituaram-se à ideia de que a paz e a prosperidade eram garantias permanentes. Os acontecimentos dos últimos anos mostraram precisamente o contrário.
Também António José Seguro procurou transmitir uma mensagem de equilíbrio. Sublinhou a importância de uma maior autonomia estratégica e da necessidade de Portugal afirmar diariamente a sua soberania.
Durante décadas, habituámo-nos a celebrar Portugal olhando sobretudo para aquilo que fomos. A verdade é que os discursos proferidos na Ilha Terceira sugerem algo diferente. Chegou o momento de pensar naquilo que queremos ser.
Essa discussão não se resume às Forças Armadas ou à política externa. Diz respeito à educação, à inovação, à economia, e à capacidade de o país preparar as novas gerações para um mundo mais competitivo e imprevisível.
Porque a liberdade é, de facto, uma responsabilidade permanente.




