A tradição do “Dia da Lã” regressa na quinta-feira ao Corvo através do Ecomuseu, que vai recriar esta prática para preservar um património que marcou a vida da comunidade e revitalizar a produção na mais pequena ilha dos Açores.
“É preciso que este processo específico da lã seja recriado, mas também praticado pela comunidade para que este património se mantenha vivo”, disse a diretora do Ecomuseu, Deolinda Estêvão, em declarações à agência Lusa.
Segundo a responsável, a lã de ovelha teve uma importância fundamental para a sobrevivência da comunidade do Corvo, numa época em que o isolamento da ilha obrigava à confeção local de vestuário, cobertores e outros agasalhos.
“Não é apenas uma matéria-prima. Representa uma forma de vida, um conjunto de saberes, gestos e memórias que passaram de geração em geração”, sublinhou Deolinda Estêvão.
A tradição estava relacionada com “a tosquia comunitária das ovelhas, e deixou memórias que têm passado de geração em geração e marcam a história e a identidade” da população do Corvo.
“Todas as pessoas ainda se lembram deste dia, que terminou em 1969. E, de lá para cá, todo o trabalho associado à tosquia terminou. Os teares silenciaram-se e aos poucos foi-se perdendo este saber tão importante, ligado à história desta pequena comunidade”, assinalou a diretora do equipamento.
Por isso, acrescentou, o “Dia da Lã” pretende recriar uma prática que fazia parte do calendário tradicional da ilha, habitualmente realizada na segunda-feira após as festividades do Espírito Santo, num momento que reunia a comunidade em torno do trabalho e do convívio.
O Ecomuseu tem desenvolvido, desde 2022, um trabalho de recuperação destes conhecimentos através de ‘workshops’ de introdução à tecelagem, costura e outras técnicas associadas ao ciclo da lã, iniciativas que têm “um público fidelizado”.
A aposta começa a dar resultados: “em 2022 não existia nenhum criador de ovelhas no Corvo” e atualmente a ilha “já conta com dois criadores”.
Por outro lado, uma família está a iniciar os processos de tecelagem e a produzir pequenas peças, entre as quais individuais de mesa, bolsas e almofadas, estando já registados como artesãos.
“E isto já é um passo importante em cinco ou seis anos para reativar a criação de ovelhas e manter viva essa tradição”, sublinhou Deolinda Estêvão, considerando que “a tecelagem pode ser rentável e sustentável economicamente” na mais pequena ilha açoriana, com uma população de perto de 440 pessoas.
Atualmente, o fio utilizado nos teares é adquirido na zona da serra da Estrela, uma vez que a lã produzida no Corvo ainda não é suficiente para responder às necessidades da produção artesanal.
“Seria importante que existissem mais criadores de ovelhas e mais pessoas a transformar essa matéria-prima para que fosse posteriormente utilizada na tecelagem e na criação das peças associadas”, destacou.
A recriação, que vai na sua terceira edição, integra um “Dia Aberto” dedicado ao acompanhamento de todas as etapas do ciclo tradicional da lã e decorrerá entre as 10:00 e as 16:00 locais (17:00 em Lisboa), junto à Casa da Memória, para “descobrir mais sobre este saber tradicional e acompanhar de perto cada passo deste processo”.
Deolinda Estêvão explicou à Lusa que a recriação contará com a colaboração da comunidade, incluindo a participação do criador de ovelhas Flávio Salgueiro e de elementos da comunidade que “ainda dominam a técnica da tosquia manual com as antigas tesouras”.
“O papel do Ecomuseu não é apenas guardar objetos numa vitrina, mas trabalhar diariamente com as pessoas e com os saberes que ainda subsistem”, afirmou.
O “Dia da Lã” incluirá ainda um lanche partilhado com iguarias tradicionais, recriando o ambiente de convívio que caracterizava esta celebração comunitária.




