Nuno Miranda, Gestor de Projetos
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Como todos os seres vivos, também as cidades nascem, crescem, adoecem e morrem. Na semana passada escrevi sobre “Porque Morrem as Cidades?”, hoje volto ao tema para analisar a anatomia desse declínio.

Não é uma anatomia exclusiva da cidade que me viu nascer, Ponta Delgada, mas, sem sombra de dúvida, foi ela a minha principal fonte de inspiração. Desde cedo calcorreei as suas ruas, como mais tarde calcorreei muitas outras cidades por onde passei. Tenho o hábito de ir vendo e absorvendo o que se passa à minha volta enquanto passeio.

Recordo-me de Ponta Delgada com o Hospital e o Centro de Saúde no seu interior, da torre do Solmar em obras, das antigas piscinas de São Pedro, do mar a bater na Calheta, da pequena porção de areia visível na Avenida Marginal e onde, reza a história, terão virado um carro na altura do 6 de Junho de 1975.

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Recordo-me dos jogos de cartas no Jardim Sena Freitas, das idas ao Pereira e Pereira, à Matimar, do Café Royal do Gil e da sua gaiola com periquitos, das ruas com moradores, das conversas à porta, das montras engalanadas e dos pequenos percursos que faziam parte da vida quotidiana. Era uma cidade diferente. Não era perfeita, mas era mais habitada, mais usada e mais presente na vida das pessoas.

Uma das primeiras etapas desse declínio é a perda do que fazia rotina, como a saída dos serviços importantes. Por necessidade de espaços mais modernos, maiores, funcionais e com melhores acessibilidades, esses serviços deslocam-se para a periferia. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Hospital e com o Centro de Saúde. Ficámos, provavelmente, melhor servidos do ponto de vista funcional. Mas, a cidade perdeu dinâmica, fluxo diário e movimento.

Muitos outros serviços mudaram, reduziram presença ou diminuíram o número de trabalhadores, por força da modernidade, da reorganização administrativa e, mais recentemente, da digitalização e do teletrabalho. Não se trata de ser contra a modernidade. Mas cada serviço que sai do centro leva consigo pessoas, deslocações, rotinas e hábitos. E, pouco a pouco, a cidade vai deixando de ser necessária.

Logo de seguida, morrem os hábitos. As milhares de pessoas que se deslocavam para trabalhar ou para tratar da sua vida no centro deixam de o fazer. E, quando deixam de ter motivos para ir ao centro, este deixa de ser um lugar natural da vida diária e passa a ser uma opção que exige motivo, tempo e esforço.

A isto junta-se o desaparecimento dos moradores, muitos pela idade, outros pela procura de habitação maior ou mais acessível. As casas ficam vazias, degradadas, entregues a outras funções ou inacessíveis para quem gostaria de lá viver. E quando os moradores saem, não desaparece apenas gente. Desaparecem rotinas, vizinhanças, luzes acesas à noite, movimento ao início da manhã e pequenos gestos que fazem de uma rua mais do que uma sucessão de portas e janelas.

A seguir, vai morrendo o comércio de proximidade. Fecha uma loja, depois outra, depois mais uma. Dizemos que foi o mercado a funcionar, que os tempos mudaram, que as pessoas compram noutros locais ou pela internet. Tudo isso é verdade. Mas, bem vistas as coisas, uma cidade perde muito quando deixa de ter comércio útil e ajustado à vida quotidiana.

Depois vem a acessibilidade. Uma cidade pode ser bonita, histórica e cheia de memória, mas se for difícil de alcançar, se for incómoda de usar, se não tiver transportes eficazes, estacionamento de proximidade e percursos bem pensados, as pessoas procuram alternativas. E aqui temos de ser práticos, as pessoas podem gostar muito da cidade, mas se chegar ao centro se transforma sempre num pequeno problema, acabam por escolher outro destino.

Neste ponto, convém desfazer uma explicação demasiado fácil, não são umas ruas fechadas ao trânsito que matam uma cidade. É uma resposta tentadora, simples e pronta a usar. Mas raramente as cidades morrem por uma razão só. O que mata uma cidade é fechar, abrir, alterar ou condicionar sem pensar no conjunto. Sem transportes, sem estacionamento, sem habitação, sem comércio, sem programação regular, sem moradores e sem articulação com quem vive, trabalha e investe no centro.

E talvez seja aqui que a anatomia se torne mais clara. Uma cidade não morre de uma só ferida. Morre pela acumulação de pequenas perdas: hábitos, moradores, comércio, serviços, acessibilidade, permanência e, por fim, comunidade.

No fundo, a anatomia de uma cidade que morre é menos nostálgica e mais funcional. A cidade morre quando deixa de ser pensada para as pessoas. Tudo o resto são sintomas dessa falha maior.

E se é aí que a cidade começa a morrer, é também aí que terá de começar o seu renascimento.

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