O arqueólogo Diogo Teixeira Dias defendeu hoje que um centro interpretativo do ilhéu de Vila Franca do Campo, Açores, ajudaria a preservar aquela reserva natural, que tem um “potencial imenso”, mas é comunicada apenas como “piscina”.
“É preciso haver uma estrutura de mediação entre o conhecimento científico e o público, com o objetivo de continuar e incrementar a preservação da própria paisagem. Se as pessoas entenderem o ilhéu nas suas diversas dimensões, vão ser pontos de ativos de preservação do ilhéu. O centro interpretativo colmata essa falha”, defendeu, em declarações à agência Lusa.
O atual coordenador do PO.RO.S – Museu Portugal Romano em Sicó, em Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, e antigo técnico no município de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel, está a desenvolver uma tese de doutoramento sobre a “melhor forma de musealizar” o ilhéu.
Diogo Teixeira Dias destaca que, no caso do ilhéu, existe “muito conhecimento científico já produzido” e “muito público”, já que aquela reserva natural recebe cerca de 36 mil visitantes por ano.
“Temos conhecimento produzido e visitantes. O que falta? Falta a ponte. E essa ponte poderá ser, sem dúvida, um centro interpretativo. Quem diz centro, diz solução interpretativa. Não tem de ser necessariamente uma estrutura física”, reforçou.
Em agosto de 2025, a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo anunciou a criação de um grupo de trabalho para avaliar a possibilidade de criar o centro interpretativo.
Diogo Teixeira Dias, que integra o grupo de trabalho, explicou que foi feita uma primeira visita ao local em agosto do ano passado e que os membros do grupo “têm vindo a partilhar informações” tendo em vista a “melhor forma de valorizar o ilhéu”.
O arqueólogo destacou o “potencial imenso” do ilhéu de Vila Franca do Campo, seja do ponto vista histórico, arqueológico, sociológico, natural, biológico e vulcanológico, apesar de continuar a ser comunicado “apenas como piscina”.
“Vendemos o banho, mas há muito mais no ilhéu do que o banho para usufruir”, afirmou, alertando que o local “não perde interesse só porque não se pode tomar banho”, disse.
O ilhéu esteve interdito a banhos na época balnear de 2025 devido à qualidade da água, tendo sido reaberto este ano.
Diogo Teixeira Dias lembrou que os turistas aguardam pelo barco para se deslocarem ao ilhéu em “filas sem qualquer proteção”, nem “informação sobre o património que vão visitar”.
“A infraestrutura de acolhimento do visitante, neste momento, não me parece ser a mais adequada. Assistimos a filas e filas de pessoas ao sol, à chuva, submetidas às intempéries, a aguardar pelo transporte”, apontou.
O arqueólogo salientou que “não se pode construir nada no ilhéu”, mas é possível “criar pontos de conexão” no local, através de soluções tecnológicas que “não são muito dispendiosas”, como códigos QR ou ‘beacons’ (pequenos dispositivos de localização).
Para evocar a importância histórica, Teixeira Dias, que tem vindo a investigar o património arqueológico daquele concelho açoriano, lembrou que o ilhéu foi um “porto natural muito importante” numa zona de “rotas intercontinentais” a partir do século XV.
Esculpido na rocha do ilhéu, por exemplo, está identificado um tabuleiro de mancala (jogo de origem africana), cuja origem é desconhecida, mas que revela a importância do local como “ponto de encontro de culturas”.
Destacou, também, que existem 70 pontos de interesse arqueológico no “ilhéu da Vila”, como “cabeços de amarração” ou “estruturas de exploração de cetáceos”, atividade “que não costuma ser associada” àquela reserva.
“Não é só uma paisagem natural como se associa sobremaneira, porque é fruto da transformação humana, do uso do homem e da utilização para vários fins, mas isso não o desvaloriza. Só o enriquece”, vincou.
O ilhéu, classificado como reserva natural, nasceu de uma erupção submarina que gerou uma cratera, sendo uma importante zona de nidificação de aves marinhas e uma das principais atrações da ilha de São Miguel.




