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Os Açores dispõem de um património único no país para acolher o Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, defende um grupo de cidadãos, que já reuniu milhares de assinaturas e o apoio unânime do parlamento regional.

A reivindicação para criar aquele museu nos Açores juntou mais de três mil assinaturas provenientes de todas as ilhas e foi plasmada numa petição cujo primeiro subscritor é o arqueólogo José Luis Neto.

“Não há nenhuma outra região do país que tenha um trabalho tão continuado e tão persistente sobre o seu património cultural subaquático. Isso permite-nos ambicionar legitimamente albergar um museu desta natureza”, defendeu à agência Lusa José Luis Neto.

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A petição foi discutida em maio na Assembleia Regional, com todos os partidos a concordar com a criação do museu nos Açores.

Posteriormente, os partidos com assento no parlamento açoriano subscreveram um projeto de resolução conjunto para recomendar ao Governo da República a criação deste museu.

Paralelamente às iniciativas políticas, José Luis Neto destacou que a prioridade do grupo de cidadãos é “continuar a sensibilizar” a população para que o museu possa nascer de uma “base popular” e “não apenas de uma decisão governamental”.

“Para além dos órgãos institucionais, é preciso que ele seja das pessoas, senão nunca será verdadeiramente nacional”, reforçou.

O primeiro peticionário realçou que o projeto tem “capacidade para unir internamente” os Açores e reforçar a “integridade nacional”, já que seria o primeiro museu nacional fora do território continental.

“A existência de um museu fora do território continental obrigará, necessariamente, a uma transformação da maneira como o próprio país se vê a si mesmo”, argumentou.

O doutorado em Arqueologia pela Universidade de Salamanca (Espanha) considerou que o museu deveria servir para celebrar os 600 anos da descoberta dos Açores em 2027, e afirmou que a região “precisa de um sinal forte de compromisso do Estado” face às “carências profundas” nos indicadores sociais e no consumo de cultura.

“Um museu desta natureza vem potenciar os Açores para o futuro e para um futuro que é o mar”, vincou.

O antigo diretor do Museu da Horta (Faial) enalteceu o património cultural subaquático dos Açores ao lembrar a importância do arquipélago como ponto de passagem obrigatória na navegação marítima a partir do século XV.

“Os Açores, por vicissitudes de navegação, concentram em si um número absolutamente extraordinário de naufrágios. Todas as nações da primeira globalização europeia foram para vários mares do mundo e, na sua volta, tinham de passar por este arquipélago, assim mandou a corrente do golfo e o regime de ventos”, explicou.

Só em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Horta e Flores existem mais de 100 naufrágios, exemplificou José Luís Neto, que referiu, também, a existência de “naufrágios extraordinários” noutros locais da região.

“À saída da Europa podia-se fazer escala na Madeira, Canárias ou Cabo Verde. Na volta, não havia hipótese: ou se passava pelos Açores ou não se passava. Depois dos Açores derivavam para Sevilha, Lisboa, Londres, França e muitas outras paragens”, indicou.

Fruto desta história, os Açores têm um património que vai desde as “grandes nações” até ao “mais simples pescador”.

“Não há pedacinho do mundo praticamente que não tenha aqui um pedaço da sua história. Isto cria nos Açores uma universalidade que mais nenhum sítio do país se pode arrogar”, disse à Lusa.

O arqueólogo sublinhou o trabalho realizado nos Açores, já que o arquipélago foi a “primeira região integral do mundo” a receber o título de ‘Best Pratices for Underwater Cultural Heritage’ da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, 2019) e foi galardoada com o ‘European Heritage Label’, no âmbito da arqueologia subaquática, atribuído pela União Europeia (2020).

“Os Açores, como de costume, são muito humildes e não fazem uma verdadeira e boa divulgação do que os distingue e, no entanto, a UNESCO e a União Europeia já reconheceram”, concluiu.

 

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