Nuno Miranda, Gestor de Projetos
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Atualmente, a política local, regional e nacional vive demasiado na espuma dos dias. Procura-se mais debater o caso do dia, a polémica do momento ou o soundbite que resulta junto do eleitorado, que analisar, estudar, planear e executar bem.

É a política fast-food, como lhe chamo. Cheia de “calorias vazias”, frases apelativas e indignações instantâneas. Faz bater teclas nas redes sociais, entre perfis falsos e adeptos fervorosos. Faz correr tinta nos jornais e serve de mote a conversas de esquina e de café.

Esta realidade tem-se agravado com fenómenos populistas que, alimentando-se de processos judiciais, suspeições permanentes e discursos sobre corrupção, imigração ou falta de escuta do povo, abriram espaço a figuras sebastianistas. Prometem transparência eterna e limpeza do sistema, enquanto pululam de bandeira em bandeira escolhendo a que mais impacto causa.

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É certo que os partidos tradicionais têm falhas. Muitas. Mas, em regra, mantêm uma linha mais coerente e estável. Não vivem apenas ao sabor do vento, da polémica ou da acusação fácil. Talvez não sejam tão fáceis de publicitar como uma cadeia de fast-food. São mais como um prato de Sopas do Espírito Santo, com história, substância e sentido comunitário.

A cidade e o concelho que me viram nascer e crescer, e perante os quais tenho responsabilidades públicas, não estão imunes a estes fenómenos. Sou deputado municipal eleito pelo Partido Socialista e assumo-o sem pejo, sem complexos e com sentido de responsabilidade.

Estar na vida política municipal não me impede, antes obriga-me a olhar criticamente para a fragmentação política existente no concelho. Uma fragmentação que, demasiadas vezes, alimenta lutas por protagonismo e empurra para segundo plano aquilo que verdadeiramente importa: as pessoas, a cidade e o concelho.

É certo que a oposição não existe para decorar a democracia, e sei bem, porque faço parte dela. Existe para incomodar, fiscalizar e fazer perguntas difíceis a quem está no poder. Mas fiscalizar não é substituir a política por ruído permanente. Da mesma forma, governar não é apenas decidir. É explicar, prestar contas e aceitar escrutínio.

Traduzindo numa frase: fiscalizar não é incendiar. Governar não é ignorar.

Mas isso, demasiadas vezes, não tem acontecido. Assistimos a trocas constantes de acusações, ao recurso permanente a requerimentos por vezes mais orientados para marcar posição do que para obter respostas úteis, e ao envio sucessivo de queixas e denúncias para a justiça.

Há casos que justificam análise jurídica, sobretudo perante acusações graves. Outros, porém, parecem mais um expediente, entre partes, para condicionar, pressionar ou simplesmente gerar notícia.

Enquanto isso, o concelho fica preso entre blocos inflamados e vociferantes. E é precisamente aí que alguém tem de recentrar a discussão e devolver o foco às pessoas e aos seus problemas.

Porque não precisamos de protagonistas maiores do que os problemas do concelho. A justiça pode esclarecer acusações, mas não constrói uma visão de cidade nem de futuro.

Ponta Delgada tem de voltar a discutir a cidade, o concelho e as suas pessoas. Não apenas alguns dos seus protagonistas.

Em suma, não precisamos de menos política. Precisamos de melhor política. Uma política que confronte sem destruir, fiscalize sem incendiar e governe sem ignorar.

Porque, quando protagonistas inflamados ocupam todo o palco, a cidade desaparece do cenário.

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