
Criado por três jovens açorianos da ilha de São Jorge, o Festing nasceu da dificuldade em acompanhar os eventos que acontecem nos Açores e rapidamente evoluiu para uma plataforma social dedicada ao universo dos festivais, concertos e iniciativas culturais. Em poucos meses, o projeto estabeleceu parcerias com eventos de dimensão nacional e prepara agora a expansão para outras regiões do país. Em entrevista ao jornal Açores 9, Diogo Teixeira, Co-fundador & Business Developer Festing, explica como surgiu a ideia, os desafios de criar uma startup tecnológica nos Açores e a ambição de transformar o Festing numa referência na forma como as pessoas descobrem e vivem os eventos.
Jornal Açores 9: Como surgiu a ideia de criar o Festing e que necessidade identificaram no mercado dos eventos e festivais?
Diogo Teixeira: O Festing surgiu inicialmente como uma ideia muito mais simples: criar uma espécie de agenda cultural digital para os Açores, onde fosse possível descobrir facilmente os eventos que iam acontecendo na região.
Isso nasceu de um problema que sempre sentimos na pele. Apesar de existirem constantemente festas, concertos, DJs, teatros ou workshops a acontecer, muitas vezes as pessoas simplesmente não sabem o que está a decorrer — ou acabam por descobrir demasiado tarde.
Com o tempo percebemos que o problema não era apenas a falta de uma agenda de eventos, mas sim o facto de toda a experiência social dos eventos estar extremamente fragmentada entre várias plataformas diferentes.
Foi aí que o conceito evoluiu para o Festing: uma plataforma que procura centralizar num único sítio toda a dinâmica social dos eventos, permitindo descobrir eventos, perceber quem vai estar presente, interagir com outras pessoas e acompanhar tudo aquilo que acontece antes, durante e depois da experiência.
JA9: Sendo um projeto criado por três jovens açorianos da ilha de São Jorge, de que forma as vossas origens influenciaram o desenvolvimento da aplicação?
DT: As nossas origens influenciaram muito o desenvolvimento do Festing, porque a aplicação nasceu precisamente da realidade que vivemos cá nos Açores — e particularmente numa ilha mais pequena, como São Jorge.
Crescer numa ilha faz-nos perceber muito cedo a importância que os eventos e as festas têm na vida social das pessoas. Nos Açores, os eventos não são apenas entretenimento; são pontos de encontro, convívio e comunidade. Seja uma tourada à corda, uma festa de freguesia, um concerto, um arraial ou um festival maior, há sempre uma componente social muito forte associada.
Ao mesmo tempo, viver numa região insular também nos fez sentir algumas dificuldades muito específicas. Muitas vezes os eventos estão dispersos, a divulgação acontece de forma pouco centralizada e acaba por existir aquela sensação de que “há sempre coisas a acontecer e nós nem sabemos”. Foi exatamente dessa experiência pessoal que surgiu grande parte da motivação para criar o Festing.
O facto de sermos de São Jorge também nos deu uma perspetiva muito prática e próxima da realidade das comunidades locais. Sempre tivemos contacto direto com organizadores, associações, festas populares e eventos culturais, e isso ajudou-nos a perceber melhor aquilo que realmente faz falta tanto ao público como às organizações.
Além disso, achamos que crescer nos Açores também nos deu uma mentalidade muito própria: a ideia de que, mesmo vindo de uma ilha pequena, é possível criar projetos com ambição e potencial para chegar muito mais longe.
O Festing começou com um foco regional porque era o contexto que conhecíamos melhor, mas desde cedo sentimos que muitos dos problemas que identificámos cá também existiam noutras regiões, e até noutros países. No fundo, acabámos por transformar uma experiência muito açoriana numa solução que acreditamos ser universal.
JA9: O que distingue o Festing de outras aplicações ligadas à divulgação de eventos e festivais?
DT: O que distingue o Festing é o facto de não ser apenas uma agenda de eventos, mas sim uma plataforma social focada na experiência completa dos eventos.
Hoje em dia, a maioria das plataformas limita-se essencialmente a listar eventos e fornecer informação básica como datas, horários ou localizações. No Festing, além de descobrir festas, festivais ou iniciativas culturais, os utilizadores conseguem perceber quem vai estar presente, interagir com outros participantes, acompanhar o que se está a dizer sobre o evento e participar numa comunidade criada à volta dele.
A aplicação permite, por exemplo, trocar informações úteis, partilhar experiências, combinar grupos, procurar boleias, acompanhar atualizações em tempo real e viver o evento de uma forma muito mais interativa e social.
No fundo, o nosso objetivo é centralizar num único sítio toda a dinâmica social dos eventos — antes, durante e depois da experiência — algo que atualmente continua muito disperso entre várias aplicações e redes sociais diferentes.
JA9: A aplicação pretende criar uma experiência antes, durante e depois dos eventos. Como funciona essa interação entre utilizadores?
DT: A ideia do Festing é permitir que toda a interação social ligada aos eventos aconteça dentro da própria plataforma. Antes do evento, os utilizadores conseguem descobrir festas, perceber quem vai estar presente, interagir com outras pessoas e acompanhar o ambiente e a antecipação em torno do evento.
Durante o evento, podem partilhar conteúdo, trocar informações úteis, participar em conversas e acompanhar aquilo que está a acontecer em tempo real.
Depois do evento, a plataforma continua a funcionar como um espaço para recordar momentos, rever conteúdo e manter a ligação entre as pessoas que participaram.
JA9: Em apenas três meses já conseguiram estabelecer parcerias com eventos como as Sanjoaninas e o Festival do Crato. Como tem sido a adesão dos organizadores ao projeto?
DT: A adesão tem sido bastante positiva, especialmente porque muitos organizadores identificam imediatamente o problema que estamos a tentar resolver. Existe cada vez mais a necessidade de criar comunidade e manter o público envolvido para além das redes sociais tradicionais. Temos sentido abertura por parte de organizações de diferentes dimensões e isso tem-nos dado bastante motivação para continuar a desenvolver o projeto. O facto de termos conseguido trazer para o Festing eventos bastante conhecidos numa fase tão inicial acabou por também validar bastante o potencial da ideia.
JA9: O Festing nasceu nos Açores, mas já está a expandir-se para o restante país. Quais são os próximos passos para o crescimento da plataforma?
DT: Neste momento estamos focados em consolidar a presença do Festing nos Açores, enquanto continuamos gradualmente a expandir a plataforma para outras regiões do país. O objetivo passa por aumentar a base de utilizadores, reforçar parcerias com organizadores e continuar a melhorar a experiência da aplicação. Ao mesmo tempo, queremos também desenvolver novas funcionalidades sociais e comunitárias que tornem o Festing cada vez mais completo, interativo e diferenciador.
JA9: Quais têm sido os maiores desafios de lançar uma startup tecnológica a partir de uma região ultraperiférica como os Açores?
DT: Um dos maiores desafios é naturalmente a distância geográfica e a menor proximidade aos grandes centros tecnológicos e empresariais. Muitas vezes sentimos que temos de trabalhar o dobro para conseguir criar contactos, apresentar o projeto e ganhar visibilidade. Ao mesmo tempo, também existem limitações em termos de mercado, investimento e acesso a determinados recursos. Ainda assim, acreditamos que hoje em dia a tecnologia permite ultrapassar muitas dessas barreiras, e também sentimos que existe um enorme potencial criativo e empreendedor nos Açores.
JA9: Consideram que existe atualmente espaço para mais projetos tecnológicos e empreendedores criados por jovens açorianos?
DT: Sem dúvida. Achamos até que existe muito potencial ainda por explorar. Hoje em dia já não é obrigatório estar num grande centro urbano para criar projetos tecnológicos com impacto. Os Açores têm muitos jovens criativos, talentosos e com ideias interessantes, especialmente quando essas ideias nascem de problemas reais que as pessoas vivem cá diariamente. Acreditamos que é importante continuar a incentivar essa mentalidade de criação e inovação regional.
JA9: Além da vertente tecnológica, o Festing aposta também na componente cultural e comunitária. Qual é a importância dessa ligação às festas e tradições regionais?
DT: Essa ligação é muito importante para nós porque os eventos e as festas fazem parte da identidade cultural e social dos Açores. Crescemos rodeados por arraiais, touradas, impérios, festivais, concertos e muitas outras iniciativas que acabam por aproximar as pessoas e fortalecer as comunidades. O Festing procura precisamente valorizar essa dimensão humana e comunitária dos eventos, ajudando também a dar mais visibilidade a iniciativas locais e regionais, para além, naturalmente, dos eventos e iniciativas de maior dimensão.
JA9: Onde gostariam de ver o Festing daqui a cinco anos e qual é a ambição da equipa para o futuro do projeto?
DT: Gostávamos de ver o Festing afirmado como uma referência na forma como as pessoas descobrem e vivem eventos, tanto em Portugal como eventualmente noutros mercados. A ambição passa por continuar a crescer de forma sustentável, desenvolver cada vez mais a componente social da plataforma e criar uma comunidade forte à volta dos eventos. Ao mesmo tempo, também gostávamos que o Festing pudesse servir como exemplo de que é possível criar projetos tecnológicos com impacto a partir dos Açores.



