Hoje decidi trazer uma comparação que pode parecer algo exagerada, à primeira vista. Mas quando médicos e especialistas afirmam que o uso excessivo das redes sociais pode ser tão prejudicial como o tabaco, o objetivo não é criar uma espécie de alarmismo gratuito, mas sim lançar um alerta sobre um problema que durante demasiado tempo foi tratado como algo secundário.
Durante anos, as redes sociais foram-nos apresentadas como ferramentas de ligação, informação e liberdade individual. E, em muitos aspetos, continuam a cumprir esse desiderato. Aproximam pessoas, democratizam conteúdos e criam formas de comunicar. O problema começou precisamente quando deixaram de ser apenas plataformas e passaram a disputar, de uma forma bastante agressiva, a atenção permanente dos utilizadores.
Hoje, grande parte da vida quotidiana decorre dentro de um ecrã. O impacto dessa transformação é particularmente visível entre os mais jovens. Desde ansiedade, dificuldade de concentração, dependência de validações digitais, comparações constantes e isolamento emocional tornaram-se fenómenos cada vez mais discutidos por especialistas. Ainda que a relação causal entre redes sociais e problemas de saúde mental continue a ser objeto de debate científico, existe um consenso crescente sobre aquilo que me parece ser um ponto essencial que tem a ver com o uso excessivo e desregulado que pode originar consequências reais.
Durante décadas, o tabaco foi encarado como um hábito social normalizado. Só mais tarde, começou a existir a consciência coletiva sobre os seus efeitos profundos na saúde pública. Também no caso das redes sociais, estamos expostos a uma tecnologia massificada antes de sequer ter existido qualquer capacidade de regulação, prevenção ou educação acerca dos seus impactos. A diferença é que o problema atual da analogia que procurei estabelecer é mais subtil, na medida em que enquanto os efeitos do tabaco são físicos e visíveis, os das redes sociais são muitas vezes silenciosos. O objetivo das plataformas não é apenas o de informar, aproximar ou entreter, mas manter o utilizador ligado o máximo de tempo possível. E isso tem consequências sociais e também políticas.
Uma sociedade permanentemente distraída, emocionalmente polarizada e altamente dependente de estímulos rápidos torna-se permeável e vulnerável à desinformação, à radicalização e à superficialidade. O problema já não depende apenas do indivíduo, mas sim do coletivo.
A meu ver, as redes sociais não são o novo tabaco, de uma forma literal. Não devem ser demonizadas nem sequer tratadas como um mal absoluto. Têm, factualmente, benefícios que me parecem evidentes. Contudo, ignorar os seus impactos nefastos seria repetir erros que vamos cometendo de forma cíclica.
Quanto tempo vamos demorar a agir com a mesma seriedade que tratamos de outros problemas que afetam a saúde pública? É uma pergunta que deixo para reflexão.




