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Durante décadas, a política internacional organizou-se em torno de um eixo claro que tinha os Estados Unidos como centro de gravidade do sistema político internacional. Hoje, esse eixo está a deslocar-se e talvez o sinal mais evidente disso seja o facto de líderes como Donald Trump e Vladimir Putin procurarem, quase em sequência, o mesmo destino, Pequim.

No centro desta dinâmica está Xi Jinping, líder de uma China que deixou de ser apenas uma potência económica para se afirmar como um ator central na arquitetura política global. A sucessão de contactos diplomáticos ao mais alto nível, incluindo visitas de líderes das duas maiores potências rivais não é, de todo, um acaso. É um sinal.

E o sinal é claro. O mundo tornou-se em algo diferente, com um novo polo dominante a ser criado. A visita de Trump e de Putin ilustra bem uma inversão simbólica que teria sido impensável há vinte anos. Em vez de ser a China a procurar reconhecimento no sistema internacional liderado pelo Ocidente, são agora os próprios protagonistas desse sistema que procuram a validação, ou pelo menos, a neutralidade de Pequim.

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No caso da Rússia, essa dependência é particularmente evidente. Desde o início da guerra na Ucrânia, a relação com a China intensificou-se, tanto a nível económico como político. Pequim tornou-se um parceiro essencial para Moscovo, garantindo fluxos comerciais e energéticos que ajudam a mitigar o impacto das sanções ocidentais.

Mas a relação não é, de todo, equilibrada. A China beneficia mais, porque reforça a sua segurança energética e consolida a sua influência, enquanto a Rússia se aproxima de uma posição de dependência estratégica.

Já no caso dos EUA, a lógica parece-me ser algo distinta, mas não menos reveladora. O simples facto de um líder norte-americano procurar Pequim num momento de tensão geopolítica demonstra que a China deixou de ser apenas um rival, mas sim um interlocutor inevitável.

E é aqui que emerge o verdadeiro triângulo geopolítico, ou, se quiserem, o “triângulo de Xi”. Não se trata apenas de relações China, Rússia e Estado Unidos. Trata-se de algo mais profundo, um sistema em que a China se posiciona como ponto de equilíbrio, ou até de arbitragem, entre duas potências que continuam a definir grande parte da agenda global.

E, se pensarmos um bocadinho, este reposicionamento tem, de facto, implicações profundas. Em primeiro lugar, confirma o declínio da centralidade ocidental. Não é o fim da influência dos Estados Unidos, mas evidencia que já não são o único polo decisivo. Em segundo lugar, reforça a ideia de que a China está a construir uma ordem internacional menos dependente das regras e instituições políticas. E, finalmente, em terceiro lugar, coloca Pequim numa posição de poder silencioso, que se traduz na capacidade de escolher quando se aproxima, quando se distancia e quando simplesmente observa.

Para a Europa, este novo equilíbrio levanta alguns desafios importantes. Num mundo em que as grandes decisões passam cada vez mais por este triângulo, o risco é tornar-se, ainda mais, num ator secundário, apenas com capacidade de reagir e não de influenciar. Ignorar esta transformação seria um erro colossal.

Cada vez mais, a questão já não é quem lidera o mundo, mas sim quem se consegue sentar à mesa com a China e a que custo.

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