Joaquim Machado, Deputado do PSD/Açores ALRAA
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Instigado pelos lamentos que vão na praça sobre o turismo, voltei à estante para folhear um livro consumido há precisamente duas décadas – “Público & Privado”, do italiano Francesco Alberoni. A dicotomia entre as esferas pública e privada na sociedade contemporânea não é fenómeno recente, nem uma degradação com origem na instantaneidade das redes sociais. Vem lá de trás e tem até uma dimensão económica, sobretudo em sociedades mais pequenas, muito sensíveis às flutuações dos mercados.

Aqui, como em quase todo o lado, há empresários que acreditam piamente na partilha: partilham os lucros… com eles próprios. O resto, claro, é para todos nós, cidadãos de coração generoso e bolsos remendados. Quando há bonança, fazem discursos inflamados sobre o génio individual, o mérito, o risco assumido. Mas basta um ligeiro desvio na economia e o tom muda. De repente, o “eu” transforma-se num “nós” pungente, solidário até à última linha do orçamento público.

É comovente ver como se tornam sociais na contrariedade. Quem ontem bradava contra o “peso do Estado” passa a vê-lo como um pai protetor, daqueles que pagam as dívidas do filho irresponsável. O mercado, esse ser místico e autónomo, só é sagrado enquanto distribui dividendos, quando distribui prejuízos, é porque “falhou o sistema”. E quem melhor para o consertar do que o erário público?

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Prossegue assim a economia moral do capitalismo contemporâneo: privatizam-se as vitórias e nacionalizam-se os desastres. É a perfeita simbiose entre o empreendedorismo heroico e o socialismo seletivo doutrora.

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