PUB

O recente posicionamento do PSD Açores, que tem por base uma possível crise na coligação governativa, não pode nem deve ser analisado como um episódio isolado ou inocente. Trata-se, antes, da construção deliberada de um novo facto político, artificial e estrategicamente colocado no espaço mediático, num momento em que os verdadeiros problemas da Região exigem foco, transparência e liderança.

Desde logo, importa sublinhar aquilo que considero ser o carácter extemporâneo desta narrativa. A suposta crise surge numa espécie de contraciclo com aquilo que foi o projeto político apresentado pela coligação e sufragado pelos açorianos e sem que existissem sinais claros de rutura iminente. Mais do que refletir uma divergência substantiva, esta antecipação de uma cisão parece responder a uma necessidade política, ou pelo menos, é assim que a interpreto. A necessidade de ocupar o espaço mediático e reconfigurar o debate público.

E porquê agora? O timing não me parece, de todo, inocente. De facto, coincide com o adensar de dossiers particularmente sensíveis, como é o caso do hospital central universitário, cuja complexidade e opacidade têm levantado sucessivas dúvidas e um claro desgaste político. Perante este cenário, a criação de uma crise política pode funcionar como uma cortina de fumo. Esta não é uma técnica nova, mas tem-se mostrado invariavelmente eficaz.

PUB

Contudo, os problemas estruturais da Região não desaparecem com manobras ou táticas políticas. O caso da SATA, por exemplo, continua a ser paradigmático, onde um processo de reestruturação prolongado, com imensos adiamentos, causa uma forte pressão nos cofres públicos. A isto, soma-se, por exemplo, o impacto da saída da Ryanair, que abandonou os Açores em março deste ano, levantando sérias preocupações quanto à conectividade, mobilidade e competitividade turística do arquipélago. Ademais, os impactos dessa saída já se fazem sentir, como indicou recentemente o representante nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira da Associação Nacional dos Locadores de Veículos (ARAC) que alertou para uma quebra de 30% na procura por viaturas de aluguer após a saída da Ryanair do arquipélago açoriano.

Apesar das garantias do Governo Regional, há um alarme evidente de que nem a SATA nem a TAP conseguirão compensar de forma equivalente esta perda, sublinhando-se a vulnerabilidade estrutural dos Açores enquanto região ultraperiférica, com todas as particularidades que isso acarreta. E mais, o próprio executivo já admitiu a necessidade de encontrar “soluções minimizadoras” para os danos causados, o que, por si só, evidencia a dimensão do problema referido.

Este contexto que procurei explicar, coloca em evidência uma questão mais profunda e, a meu ver, mais preocupante que é a ausência de um modelo económico robusto e diversificado. O crescimento recente da economia açoriana tem assentado, em larga medida, no consumo e na despesa pública, sem sinais consistentes de dinamização do investimento privado ou emergência de novos setores de produção. A dependência que se criou do turismo, aliada à dependência crónica da lavoura, não tem alternativas claras que garantam a sustentabilidade a médio e a longo prazo.

Paralelamente, persistem fragilidades sérias no que concerne aos indicadores sociais. As dificuldades na fixação de jovens qualificados, o aumento das listas de espera na saúde, por exemplo, em que o presidente do PS Açores, Francisco César já alertou para o “agravamento das listas de espera cirúrgicas”, que aumentaram cerca de 38% desde 2022, isto já sem abordar os desafios na área da educação, são exemplos que revelam uma Região que continua a enfrentar desafios de âmbito estrutural, sem que haja respostas políticas à altura.

É precisamente neste enquadramento que a estratégia do PSD Açores deve ser lida. Ao deslocar o foco para uma espécie de encenação de crise política, procura-se não apenas desviar atenções, mas também reconfigurar equilíbrios internos e externos. Importa, no entanto, referir que esta opção pode comportar riscos elevados, na medida em que a instrumentalização da instabilidade política pode ter efeitos contrários aos desejados, o que pode reforçar a perceção da fragilidade do governo e, consequentemente, aumenta o descontentamento dos eleitores.

A política não pode nunca ser reduzida a manobras de distração. Quando os problemas são reais e profundos, como procurei demonstrar, este tipo de jogadas não os resolve, apenas os adia. E muitas vezes, quando adiamos um problema, ele tende a agravar-se.

Talvez, desta vez, o cálculo político falhe. E talvez, desta vez, os açorianos percebam que por detrás do ruído, permanecem os problemas essenciais por resolver.

PUB