O passado tornou-se uma espécie de criatura mitológica: toda a gente sabe que existe, mas há quem jure a pés juntos que nunca o viu, especialmente na política, onde a memória parece ter prazo de validade muito curto.
Certas figuras, de forma quase artística, olham para o seu percurso como se fosse obra de um desconhecido, como se nada tivesse a ver com o que hoje temos ou deixámos de ter por decisões de tempos idos. Para essa gente, o passado é sempre um equívoco e nunca uma responsabilidade. Dá jeito que assim seja quando hoje apontam o dedo e exigem soluções milagrosas que ontem foram incapazes de pensar e aplicar.
Talvez o problema não esteja no passado em si, mas na dificuldade em lidar com ele. Afinal, assumir erros exige mais coragem do que apagá-los, e a coerência nunca é tão popular quanto a conveniência da ocasião. No fundo, há quem não tenha medo do passado, tem medo, isso sim, de ser confrontado com a pessoa que já foi, com o que fez ou não conseguiu realizar.
Digo isto a propósito do pavor dos socialistas cada vez que são chamados a confrontar os resultados atuais da governação com o seu exercício do poder até 2020. A comparação é inevitável e necessária. Só assim se pode aferir se os Açores estão a evoluir ou a regredir, se estamos no caminho certo ou na trajetória que leva ao precipício.
Percebo o medo e a recusa – as evidências são terríveis, tornam inócua a narrativa e desgastam a Oposição. Daí preferirem as promessas a esmo e a memória seletiva, a história não como registo do que aconteceu, mas apenas como sugestão do que convém lembrar.




