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Há uma tendência confortável em transformar o 25 de abril numa espécie de ritual. Cravos, discursos, a evocação da liberdade. Tudo certo, mas cada vez mais insuficiente.

O problema não está diretamente relacionado com a celebração em si. Está, sim, na ilusão de que celebrar uma das datas mais relevantes para o nosso país chega.

Durante décadas, abril foi-nos apresentado como um ponto de chegada, um momento em que Portugal conquistou a democracia e garantiu direitos fundamentais. Mas em 2026, abril deve ser visto como um ponto de partida. Ponto esse que está permanentemente inacabado. Porque, no meu entender, a distância entre os princípios consagrados e a vida concreta de muitos portugueses continua a ser demasiado grande e evidente.

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Atualmente, falar de abril implica, necessariamente, falar de frustração. Uma geração inteira cresceu em democracia, mas vive com dificuldades que coloca em causa a promessa de progresso. Trabalhar já não garante estabilidade. Mais, ter formação superior não assegura, de todo, mobilidade social. Sair de casa dos pais tornou-se, para muitos, um objetivo adiado. E o acesso a serviços públicos de qualidade deixou de ser uma certeza para passar a ser uma incerteza recorrente.

Não estou, nem quero negar o caminho feito. Estou a realçar apenas aquilo que ficou por fazer. E, creio, o que ficou por fazer é, em muitos casos, estrutural. Desde logo, uma economia incapaz de garantir melhores salários, um mercado de habitação completamente desregulado e desajustado, um Estado que nem sempre consegue responder de forma eficaz às necessidades básicas da população. De facto, dir-me-ão que estes problemas não são novos e, obviamente que não são. Mas acumulam-se, e ao acumularem-se, desgastam a própria ideia de democracia como ferramenta para melhoria das condições de vida.

É precisamente neste ponto que abril deixa de ser uma memória e passa a ser uma exigência. Porque uma democracia que não entrega resultados concretos arrisca-se a perder legitimidade aos olhos de quem mais precisa dela. E quando isso acontece, o espaço abre-se para soluções fáceis, discursos radicais e promessas que não tem em consideração a complexidade dos problemas.

Portugal ainda está nesse ponto. Mas não está imune. Por isso, talvez seja tempo de mudar o tom. Menos retórica e mais capacidade de execução. Menos passado, e mais compromisso com o presente. Abril não pode ser só palavras. Se, de facto, abril continuar sem se cumprir, poderá esvaziar-se o seu significado.

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