Houve um tempo em que Francisco César e toda a camaradagem socialista olhavam para qualquer proposta de abaixamento de impostos com a mesma desconfiança moral com que um guarda-florestal olha para um lenhador furtivo. “A redução fiscal – dizia então, perante a proposta do governo de Bolieiro – é uma espécie de… Robin dos Bosques ao contrário! Retira recursos aos que menos têm, ou seja, à capacidade do Estado para ajudar, para dar àqueles que têm mais rendimentos! A vossa proposta [do PSD, CDS e PPM], na prática, beneficia um em cada 10 açorianos. E esse um que é beneficiado pertence aos que têm mais rendimentos”. A descida do IRS era privilégio para deputados e magnatas de altos rendimentos, bradava no último suspiro.
Nessa fase iluminada, baixar impostos era quase um ato de vandalismo orçamental, porque tirava aos serviços públicos para dar aos contribuintes, esses suspeitos habituais de quererem ficar com o que é deles.
Mas os tempos mudam. E as frases também. César diz agora que “a última coisa que gostaria é que o governo [regional] fosse obrigado a subir impostos nos Açores”.
O Robin dos Bosques ao contrário desapareceu misteriosamente da narrativa, como se nunca tivesse existido.
No fundo, César não mudou qualquer ideia sobre política fiscal, mudou apenas o espelho. E, como em todos os bons exercícios de retórica, o passado serve tão-só para provar uma coisa simples: tinha razão naquela altura. E, claro, quer continuar a tê-la agora.
A razão nunca está errada, apenas aguarda o momento certo para voltar a estar certa.




