As eleições legislativas na Hungria marcaram um momento histórico. O fim de mais de uma década de poder de Viktor Orbán e a vitória clara de Péter Magyar. Com uma maioria clara no parlamento, o novo líder tem agora nas mãos não apenas um governo, mas a possibilidade de redesenhar o sistema político húngaro. De facto, os números são muito expressivos.
O partido de Magyar conquistou uma maioria de dois terços, suficiente para alterar a Constituição e desmontar o modelo institucional construído por Orbán ao longo de 16 anos. Mais do que uma alternância normal, trata-se de uma mudança de regime político.
O contexto, a meu ver, ajuda a explicar a dimensão desta vitória, na medida em que o desgaste do governo anterior, marcado por acusações de corrupção, controlo dos media e degradação do Estado de direito, abriu espaço a uma alternativa que prometeu exatamente o seu contrário, transparência, reformas institucionais e reaproximação à União Europeia.
É precisamente aqui que começa o verdadeiro desafio de Magyar. Ora, ele chega ao poder com expectativas elevadíssimas e uma margem de manobra bastante incomum. Prometeu restaurar a independência judicial, combater e recuperar a confiança das instituições europeias. Em simultâneo, sinalizou a necessidade de uma mudança efetiva na política externa, tendo-se afastado de Moscovo, ainda que seja relevante evidenciar que não rompeu totalmente com a dependência energética dos russos.
O problema é que desmontar um sistema é sempre mais difícil do que conquistá-lo. Durante anos, o poder de Orbán enraizou-se nas instituições, na administração pública e no ecossistema mediático. Mesmo tendo em consideração que Magyar dispõe de uma maioria qualificada no que ao parlamento diz respeito, a transformação não será automática, nem sequer rápida. Irá, certamente, gerar resistência interna, bem como instabilidade política. Além disso, acresce o facto de que a própria heterogeneidade política que sustenta Magyar pode tornar mais difícil a governação a médio prazo.
Por tudo isto, mais do que celebrar uma mudança, importa observar o que vem a seguir. A Hungria entra agora numa fase decisiva, pelo que o sucesso de Magyar não dependerá apenas da sua vitória eleitoral, mas sim da sua capacidade de produzir resultados concretos, tão rapidamente quanto possível.
No fim de contas a questão é simples, esta eleição foi o fim de um ciclo ou apenas o início de uma nova incerteza?




