Há algumas semanas, o mundo conheceu a história de Noelia Castillo, uma jovem de 25 anos, que esperou 601 dias para morrer com a dignidade que a Legislação Espanhola lhe permitia, mas cujo pai, que a negligenciou toda a vida, tentou impedir com o apoio jurídico de uma associação de advogados católicos.
Relembrando a cronologia deste processo doloroso, após ter ficado paraplégica na sequência de uma tentativa de suicídio, foi autorizada a morte medicamente assistida, em julho de 2024, uma vez que Noelia cumpria os critérios por se encontrar numa situação clínica não recuperável, que lhe provocava dependência grave, dor e sofrimento crónico incapacitante. Apesar da pressão psicológica familiar, partidária e jurídica, Noelia não desistiu de não sofrer e partiu, consciente da sua decisão.
Recentemente, tomei conhecimento de Catalina Giraldo, uma mulher colombiana, de 30 anos, que sofre de depressão crónica, perturbação de personalidade Borderline e ansiedade crónica, sujeita a 40 esquemas farmacológicos diferentes, 9 internamentos psiquiátricos e 3 ciclos de terapia electroconvulsiva, sem sucesso. Cada expiração custa-lhe. Cada dia é uma espécie de desesperança crónica que faz com que a sua existência seja, na maior parte do tempo, agoniante. À noite, enfrenta novas angústias, pois o seu cérebro não lhe dá tréguas, tendo já tentado tirar a própria vida. Catalina, à semelhança de Noelia, está cansada e tomou uma decisão que parece irrevogável: morrer. A forma como deseja partir é a do suicídio assistido, tal como Noelia.
Como humanidade, o suicídio horroriza-nos porque confronta-nos com o núcleo da nossa própria natureza, apresentando-se como contraintuitivo. No entanto, o suicídio é um exercício de soberania última sobre o corpo e a vida. Quase ninguém deseja existir se aquilo que predominantemente experimenta é um sofrimento crónico e incurável. Não se trata de trivializar a condição humana. Enfrentamos dores de toda a ordem, dói-nos o coração e suportamos angústias, mas isso está muito longe de uma experiência permanente de padecimento semelhante a um regime de tortura. Há momentos em que o sagrado não é a vida em si mesma, mas o amor e as formas que ele assume, como a da compaixão.
Em Portugal, o suicídio medicamente assistido e a eutanásia foram legalizados em 2023, com a aprovação final da Lei n.º 22/2023, publicada no Diário da República a 25 de maio desse ano, mas esse direito nunca foi operacionalizado devido à falta de regulamentação. Questiono-me acerca do número de pessoas que, em estado de consciência absoluta, padecem com dores incapacitantes; do número de pessoas que recorre a outros países para partir com dignidade e das pessoas que se suicidam, pelos próprios meios, causando um impacto familiar e social muito maior.
Para quem banaliza a saúde mental: a sensação da depressão é como a de um alcatrão espesso que aderiu a cada uma das articulações. É impossível mover-nos. O trajeto entre a cama e o duche assemelha-se ao escalar do Everest, sem sapatos. A depressão não é uma dor particular, é um vazio de sentido. É um centro de gravidade situado bem no meio do peito, onde repousa o peso do mundo inteiro. Um sofrimento seco, ensurdecedor, por vezes, insuportável. Às vezes, funcionam a terapia, a medicina, o amor e Deus. Outras vezes, não.
Este texto não é uma ode ao suicídio. É um lembrete para a importância da saúde mental, da vida e da sua dignidade.




