O sucedido na Assembleia da República, no passado dia 2 de abril de 2026, foi uma das maiores vergonhas nacionais de que há memória. Quem o permitiu, não foi apenas quem votou no partido de Salazar. Nem sequer os que votaram nos fãs de Javier Milei, Elon Musk e Donald Trump. Foram, também, os cristãos que se dizem democratas, talvez que nefastamente imbuídos de um espírito particularmente santo, em véspera de feriados pascais.
A 2 de abril de 1976, foram assassinadas duas pessoas a mando de forças ligadas ao CDS-PP. Não são alegações da minha cabeça. Limito-me a repescar o que o Jornal de Notícias, pela mão de Delfim Machado, relembrou na edição, de 29 de março. Nesse dia, num clima nacional que já há bastante tempo ultrapassara o alegado espírito opressivo do Verão Quente, os cristãos democratas encomendaram a um grupo de milicianos de extrema direita a morte de um padre. Como é que se confessaram nos dias, meses e anos que se seguiram, nunca saberei.
O Padre Max morreu naquele dia. Tal como Maria de Lurdes Correia. Morreram, porque acreditavam num mundo melhor, onde uma pessoa humilde poderia seguir o exemplo de Cristo e ajudar a trazer democracia e conhecimento aos que antes tinham sido espezinhados por Salazar e pelos seus companheiros sanguinários.
Max era um homem de fé e esperança, que trabalhava para alimentar a comunidade onde vivia com a palavra e o espírito sagrado. Era um homem a celebrar. Em vez disso, permanece humilhado, cinquenta anos depois. Ele, e todas as pessoas que morreram pelas mãos de conspirações semelhantes. Resultado da ação dos antigos membros do Estado Novo que passearam pelas estradas e aldeias do nosso país, alimentando terroristas e incentivando guerrilhas fascistas.
O objetivo, claro está, era o regresso da ditadura absolutista. A mensagem era outra. Era o anticomunismo primário. O mesmo que hoje sai da boca dos partidos de Salazar e Milei. E dos democratas-cristãos, juntando-se à festa sempre que podem, com a esperança de que reste um lugar pequenino, no futuro Parlamento da ditadura que se seguirá.
A 2 de abril de 2026, por ocasião dos cinquenta anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa, o CDS juntou-se a esses tristes engravatados, e deixou claro de que lado da barricada se encontrará. Não é novidade, mas não deixa de ser uma constatação que precisamos de fazer.
Cristão algum deverá contar com aquela gente. Que o diga o padre Max, que em vez de honras, recebeu apenas esquecimento. E democrata algum poderá esperar outra coisa que não opressão, de quem se junta aos novos extremismos, para expulsar as mães e os pais da nossa constitucionalidade da casa da Democracia.
Lembremos que é isso que eles fazem, contra pessoas trans, contra a identidade de género e contra a eutanásia, para dar apenas alguns dos muitos exemplos de iniciativas partilhadas por esse eixo do ódio. O PSD da Spinumviva não está inocente, claro.
Mas hoje, é do CDS que escrevo. Porque é o partido que está agarrado à beira do abismo, rezando para que não “morra de morte natural”, conforme Paulo Núncio se referiu à eutanásia.
Para recordar Max e para vos dizer que devem ler acerca do seu trabalho, a sua vida, e a honra que foi termos uma pessoa assim no nosso país. E ainda, relembrar uma velha máxima que aprecio: se estão dezanove pessoas sentadas à mesa, chega um fascista e se senta, sem que alguém se levante, passam a estar ali sentados vinte fascistas.




