Há quem consiga transformar boas notícias em motivo de lamento. A descida do número de beneficiários do rendimento social de inserção (RSI) é um desses casos. Para certos insuspeitos, a redução não é sinal de progresso, mas uma espécie de catástrofe social anunciada. Argumentam dizendo temer que as pessoas fiquem “desamparadas”, excluídas de enquadramento social, como se a única porta de acesso à inclusão fosse permanecer dependente de uma prestação. Até vêm na redução um “lado perverso”. Afinal, parece que o ideal não é que as pessoas saiam da pobreza, mas que nela permaneçam… bem acompanhadas.
Ironicamente, muitas vezes, são as mesmas vozes que, noutros tempos, chegaram a celebrar com entusiasmo o décimo aniversário do então chamado rendimento mínimo garantido (RMG). Nessa altura, a existência prolongada do apoio era motivo de festa. Hoje, a sua menor necessidade é tratada como problema.
O que fica convenientemente esquecido são as evidências que não cabem na narrativa do pessimismo. Os Açores vivem hoje com menos pobreza – pela primeira vez deixámos de ser a região mais pobre do país – o emprego atinge níveis historicamente elevados e o abandono precoce de educação e formação é o mais baixo de sempre.
Transformar o sucesso das políticas sociais numa suspeita permanente não é um bom serviço. A verdadeira ambição não deve ser eternizar prestações, mas criar condições para que cada vez menos pessoas precisem delas, com mais trabalho, mais qualificação e mais dignidade.
Nada é mais desconfortável do que o sucesso quando ele não cabe na narrativa.




