A idade, experiência, maturidade política e o atual cenário político e socioeconómico, dos Açores, desencadeiam, em mim, um conjunto de questões que suscitam confrontos internos e momentos de reflexão. Sem colocar em causa, nenhuma das minhas convicções pessoais e o espetro político em que me enquadro, assumo que, no passado, tive abordagens maniqueístas, nas quais não quis, talvez pela utopia que vive em mim, ver as nuances que, estrategicamente utilizadas, podem ser construtivas, no sentido da execução de políticas que visem melhorar medidas implementadas. Não se trata de um ato de contrição, pois não me arrependo de nenhuma batalha travada.
Embora, não sendo defensora do boom turístico, e da forma como foi implementando, não posso ignorar os impactos positivos, nem esquecer os negativos, como é o caso da falta de disponibilidade de habitação, por exemplo.
No entanto, e face a tudo o que tem sido dito acerca da sua desaceleração atual, reconhecida finalmente pelo Presidente do Governo Regional, através de um balbucio desconfortante, não posso deixar de referir que os Açores não precisam de estar “na moda”. Precisam de estratégia, visão e políticas que funcionem na prática. Acima de tudo, agir com responsabilidade e planeamento que garantam alguma previsibilidade.
O que sustenta o turismo não são prémios ou campanhas mediáticas, mas sim o trabalho de quem atua diariamente na hotelaria, restauração e serviços. A expansão rápida de hotéis, alojamentos locais e restauração gourmet, sem um enquadramento estratégico sólido, mostrou-se insuficiente para sustentar o setor de forma estável.
Apesar do crescimento do turismo, verificado nos últimos anos, a pobreza estrutural nos Açores continua preocupante. Em 2024, a taxa de risco de pobreza era de 17,3%, acima da média nacional de 15,4%, e cerca de 28,4% da população estava em risco de pobreza ou exclusão social — muito acima do território nacional. Mesmo entre quem trabalha, o risco de pobreza mantém-se elevado, refletindo a fragilidade de empregos sazonais e de baixos salários praticados em setores como a hotelaria e restauração. Estes números mostram que o turismo, por si só, não combate a pobreza, sendo necessária uma política económica e social integrada.
Para tal, é imperativo que a política regional vá além de campanhas mediáticas e eventos protocolares. O setor necessita de uma estratégia equilibrada, que incida na valorização do trabalho local, promovendo oportunidades reais para profissionais da região, reforce a formação e qualificação profissional e promova sustentabilidade económica e territorial, assegurando benefícios concretos para a população.
Uma abordagem integrada permite, à Região, transformar desafios em oportunidades, mantendo o turismo como, mais uma alavanca económica, sem colidir com a nossa identidade e com os recursos do arquipélago.
Os Açores não necessitam de estar “na moda”, mas sim, de políticas consistentes, responsáveis e inovadoras, capazes de gerar confiança e resultados duradouros para toda a população que depende, direta ou indiretamente, deste setor.
O turismo não pode persistir na lógica de números, reconhecimentos e prémios, mas incidir naquilo que é a vida, trabalho e futuro.
E é isso que se exige a quem pretende concretizar política com impacto real, pois nesses prémios e distinções, não vivem as pessoas que trabalham no setor.
Há mais vida além da Ryanair…




