O Partido Socialista deve achar que coerência é uma extravagância orçamental. Num dia, ergue o estandarte da responsabilidade e exige cortes na despesa, como quem descobre subitamente a virtude da contenção, depois de anos de distração criativa com o dinheiro dos contribuintes. No dia seguinte, porém, já anuncia com ar grave a inevitabilidade de um resgate financeiro, como se estivéssemos todos à beira do abismo por culpa alheia, nunca por causa das hesitações e fogos-fátuos programáticos que o próprio partido alimenta. É uma espécie de profeta da desgraça com memória curta: clama por austeridade ao almoço e por salvação externa ao jantar.
E quando, por fim, surge uma medida concreta que permitiria aumentar a receita da Região – neste caso, através da capitação do IVA – os socialistas decidiram não votar a favor, como se a aritmética fiscal fosse opcional e a credibilidade não dependesse, justamente, de ligar o discurso à prática. Afinal, para quê arrecadar mais receita se é politicamente mais confortável continuar a dramatizar o défice e a despesa? Entre a oportunidade de dar solidez às contas públicas e a tentação de manter o drama, César escolhe invariavelmente o palco.
Este é, portanto, o verdadeiro milagre do PS: consegue ser, em simultâneo, guardião da despesa, apóstolo do resgate e inimigo de medidas que aumentam a receita. Isto não é um programa económico, é um triatlo de contradições. Enquanto se procura dar estabilidade e sustentabilidade à tesouraria pública, o PS continua firme apenas numa coisa, a vacilar. A incoerência tornou-se regra.




