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Esta semana, deparei-me com uma notícia da RTP Açores que, qual o meu espanto, tem como objetivo difundir a recente posição do presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral, ao defender a criação de um novo HDES, como sendo o hospital central dos Açores. Na minha perspetiva, esta tomada de posição deve ser analisada com especial atenção, não apenas pelo seu conteúdo, mas sobretudo pelo enquadramento (ou falta dele) político e territorial nela revelados.

À primeira vista, a intenção de reforçar a qualidade hospitalar da Região é legítima e necessária. Creio que não haverá dúvidas acerca disso. O problema reside na forma como este discurso é construído. Parece-me evidente a visão profundamente limitada daquilo que é, e deve ser, a realidade açoriana enquanto arquipélago.

Os Açores não são uma ilha. São nove, dispersas no Atlântico, com constrangimentos logísticos, geográficos e humanos que exigem, a meu ver, uma abordagem integrada e sistémica. Falar ou equacionar um hospital central como se a solução se resumisse a reforçar um polo em São Miguel é ignorar a essência do Serviço Regional de Saúde e, mais grave ainda, é revelar uma perceção fragmentada do território. A saúde nos Açores não pode ser pensada apenas a partir de Ponta Delgada. Tem sim de ser pensada a partir da totalidade do arquipélago, com políticas que garantam equidade efetiva entre ilhas.

Aquilo que Pedro Nascimento Cabral parece sugerir, é centrar a saúde numa lógica de concentração de serviços, o que obviamente reforça assimetrias já existentes, em vez de as colmatar. Um sistema de saúde nos Açores exige complementaridade entre unidades, articulação e uma rede de cuidados que responda às necessidades específicas dos habitantes de cada ilha. Transformar o debate num exercício de um único hospital não só não resolve problemas estruturais como ainda os agrava.

Mais preocupante ainda é a ausência de uma visão estratégica que reconheça a importância da integração e cooperação em rede. Num arquipélago, o acesso aos cuidados de saúde depende não apenas da organização dos serviços, mas também da capacidade de resposta que se quer territorialmente distribuída. Reduzir esta complexidade é, no mínimo, uma leitura incompleta da realidade dos Açores.

Um dos argumentos utilizados, tem a ver com o peso populacional de São Miguel, e o seu papel como “motor económico e social”, pode ter algum fundamento no plano económico, mas extrapolar esse argumento para justificar uma hierarquização do sistema de saúde é algo que me parece, no mínimo, insuficiente e trata-se de uma simplificação que ignora a complexidade do arquipélago. A demografia, por si só, não pode ser o critério dominante para decisões desta natureza, sobretudo quando se trata de um território insular.

A intervenção pública daqueles que são politicamente responsáveis exige rigor e responsabilidade territorial. Esta intervenção demonstra uma preocupante ausência de empatia e de perceção da interdependência do arquipélago, como se os Açores pudessem ser governados, planeados e organizados sem ter em consideração as especificidades da insularidade.

Esta visão torna-se particularmente problemática quando partilhada por um autarca com as responsabilidades acrescidas como as que tem. Deveria ser justamente um promotor de coesão territorial e não de centralização implícita. A governação dos Açores exige uma cultura política que valorize um todo regional, porque sem essa visão agregada, qualquer proposta será, inevitavelmente, ineficaz.

Os Açores exigem pensamento estratégico capaz de integrar as nove ilhas num modelo de desenvolvimento equilibrado. Qualquer abordagem que ignore esta responsabilidade não é apenas incompleta, mas politicamente desajustada e territorialmente cega.

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