Nos últimos tempos, têm sido frequentes operações da P. Judiciárias, às quais são atribuídos títulos quase humorísticos, mas de enorme gravidade. Desde Operação Rigor Mortis – relativa a questões associadas a casas mortuárias -, passando, algum tempo após, para duas megaoperações em simultâneo – Operação Lúmen -, que levaram nomes fortes em Lisboa e nos Açores a estremecer.
Embora, longe dos resultados, sabemos, para já, é que a Operação Lúmen terá detetado diversos escândalos de compadrio, girando em torno de alguns nomes menos conhecidos da nossa praça, que, alegadamente, passaram décadas a trabalhar nos bastidores e a angariar favores e dinheiro. Entre eles, Laplaine Guimarães, nome histórico do CDS, mas que na Câmara de Lisboa já se sentou na mesa de quase todos os últimos presidentes, sendo agora o secretário-geral do executivo de Carlos Moedas. Ainda não sabemos pormenores, pelo que não juntar-me-ei ao coro de populismos, crucificando pessoas que não foram devidamente julgadas pela justiça.
Grave, a corrupção que sempre soubemos existir. Igualmente grave, a realidade nos Açores, onde foi a Secretária Regional Berta Cabral a principal visada, até ao momento em que escrevo. A Operação Last Call, girou em torno de alegados favorecimentos indevidos à Ryanair, através do POA 2030, para manter as suas rotas nos Açores. Favores que resultaram tão bem, ao ponto de a empresa estar de partida, conforme é do domínio público. Talvez tenham sido prendas envenenadas. A justiça o dirá.
O que é certo, até ao presente, é que andamos a acompanhar alguns dias de buscas, em que as Câmaras de Comércio e Indústria e escritórios de advocacia estiveram debaixo do olhar cuidado de agentes da judiciária, bem como outros espaços associados à Senhora Secretária. Logo de seguida, Paulo Estêvão foi enviado para debaixo das luzes e das câmaras dos jornalistas, para dizer que não havia arguidos no governo, momentos antes da notícia de que a senhora havia sido constituída arguida, para poucas horas após, sair um desmentido.
Quem vê de fora, fica com a sensação de que o Secretário dos Assuntos Parlamentares anda a servir de saco de boxe do PSD. Assim se viu na ida à BTL do executivo, deixando-o solitário no Parlamento, enfrentando um dos plenários mais infelizes da história da nossa Autonomia, no mês passado.
Embora, no plenário da semana passada, o Governo tenha sido interpelado no sentido de informar a situação política relativa à Last Call, o silêncio foi total, o que me entristeceu, pois sempre tive em Berta Cabral uma referência de mulher determinada e sem receios. Aguardemos os desenvolvimentos necessários a estas operações, sem alinhar em exaltações que só alimentam a extrema-direita. Mas, não deixemos de assinalar que o que se alega, para os Açores, é que o setor público do neoliberalismo andou a ajudar o privado, enquanto alimentava o crescente buraco financeiro da companhia aérea pública, para servir de bode expiatório à crise que cresce nas sombras. É a velha jogada liberal, que é comparsa do fascismo, e que continua a funcionar nas nossas costas, com muito pouca impunidade. É um bar aberto, onde os ricos bebem e os pobres servem até morrer, e às vezes mesmo depois disso. Talvez, o nome mais adequado para este caso fosse mesmo Rigor Mortis.




