O regresso de Pedro Passos Coelho à agenda mediática nacional não me parece ser um acaso, nem pode ser lido como um mero exercício académico ou como uma intervenção circunstancial. Na política, sobretudo quando falamos em figuras desta relevância, o silêncio que numa determinada altura pode ser prolongado, é tão estratégico quando as palavras que são escolhidas. Quando alguém governou o país num dos períodos mais exigentes da sua história recente volta a falar com regularidade, isso é e será sempre um facto político de extrema relevância.
Passos Coelho carrega um capital simbólico que permanece ativo. Para uma parte do eleitorado, representa uma elevada firmeza e capacidade reformista, coragem no processo de tomada de decisão e clareza ideológica. Para outra, continua a ser uma figura austera, associada ao período da troika. A existência desta divisão não desapareceu, nem desaparecerá com o tempo. Apenas se tornou, na minha opinião, menos ruidosa. O seu regresso, traz de volta esse contraste e reabre uma discussão que podemos considerar que estava adormecida… qual é, afinal, a identidade que o PSD quer ter?
O PSD vive, na minha ótica, um momento particularmente sensível. Sob a liderança de Luís Montenegro, procura afirmar-se e consolidar a sua posição no executivo, tentando, em simultâneo, gerir equilíbrios internos num espaço político que, à direita, está cada vez mais fragmentado. A intromissão de Passos na agenda mediática não é uma boa notícia para Montenegro, na medida em que se farão, inevitavelmente, comparações entre ambos, o que criará um nível considerável de ruído. Não é preciso que Passos critique de forma direta e aberta a governação de Montenegro. Basta falar, dar o seu ponto de vista, para que o contraste entre ambos seja evidente. E em política, a existência de uma perspetiva diferente, é sempre de realçar.
Importa sublinhar que Passos Coelho nunca abandonou na totalidade o espaço público. Foi escolhendo intervenções esporádicas e contextos controlados para se fazer ouvir. Ao contrário de figuras políticas que permanecem constantemente nos espaços de comentário político, Passos reaparece com alguma parcimónia, o que amplifica cada posição sua.
O seu regresso à agenda política ocorre num contexto desafiante e de reconfiguração do espaço político tradicional, sobretudo à direita. A afirmação do Chega alterou o equilíbrio de forças no parlamento e colocou pressão no PSD, no que diz respeito à clarificação de estratégias e posições. Neste cenário, Passos Coelho pode surgir como uma referência ideológica menos centrada na gestão tática e mais naquilo que é a definição programática do país.
Sempre que Passos intervém, a narrativa política é recentrada, na sua generalidade. O ex-primeiro-ministro tem, na minha perspetiva, a capacidade de deslocar o foco para temas estruturais, consegue reativar memórias e obriga os principais atores políticos a tomarem posições. No fundo, mesmo que não queira liderar, condiciona.
Há mais um dado a ter em conta em tudo isto. A política nacional tem revelado alguma volatilidade nas lideranças e na rapidez da erosão do capital político dos principais líderes, ainda mais quando assumem papéis de protagonistas. A existência de uma figura política com experiência governativa consolidada tem um peso significativo.
Os regressos raramente são inocentes. Resta saber se estamos perante a preparação de um novo ciclo ou apenas perante a reafirmação de uma voz que nunca deixou de pesar no espaço mediático nacional.




