A organização do festival internacional de folclore Folk Azores, na ilha Terceira, suspendeu uma feira de artesanato realizada há duas décadas e alertou que o próprio festival está em risco, por falta de apoios do executivo açoriano.
O Comité Organizador de Festivais Internacionais da Ilha Terceira (COFIT) avançou, em comunicado, que decidiu suspender, este ano, a realização da 20.ª Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais, integrada no festival Folk Azores, depois de terem sido recusados apoios do Governo Regional dos Açores.
“Esta decisão não decorre de qualquer falha organizativa, nem de quebra de procura, nem de ausência de parceiros internacionais. Resulta exclusivamente de um conjunto de indeferimentos e suspensões de apoio financeiro por parte de entidades públicas regionais, que inviabilizam a execução financeira do evento nos termos previstos e contratualizados”, adiantou o COFIT.
Segundo a organização do Azores Folk, o Centro de Artesanato e Design dos Açores (CADA), “comunicou formalmente o indeferimento do apoio solicitado este ano, após longos anos de apoio constante”.
Também a Direção Regional do Turismo “suspendeu o apoio enquadrado no Decreto Legislativo Regional n.º 18/2005/A, de 20 de julho”, que regula o financiamento público de iniciativas com interesse para a promoção do destino turístico Açores.
O COFIT alega que a Feira de Artesanato e Sabores era um “espaço de contacto direto” entre a comunidade açoriana e mais de uma dezena de grupos de folclore internacionais, que participam no festival “suportando os próprios custos de deslocação, trazendo consigo artesanato, gastronomia, tradições e, sobretudo, capacidade de difusão internacional da marca Açores”.
Ainda sem resposta à candidatura a apoios da Direção Regional da Cultura, a organização admite que a realização da 40.ª edição do festival também está em risco.
“Estas decisões colocam em causa a própria realização do Folk Azores, evento certificado por organizações internacionais ligadas à UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] e reconhecido no circuito mundial dos festivais internacionais de folclore como uma referência de qualidade, dimensão e organização”, apontou.
O COFIT disse já ter solicitado ao presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, que “intervenha institucionalmente, reavaliando o impacto destas decisões e ponderando soluções que impeçam que a região perca um dos seus mais eficazes instrumentos de diplomacia cultural, promoção externa e captação indireta de fluxos turísticos”.
“Ao longo dos anos, o evento tem contribuído para consolidar a imagem dos Açores como destino cultural seguro, estruturado e com capacidade organizativa de dimensão internacional. Retirar apoio estrutural a uma iniciativa com este histórico significa fragilizar uma política pública que, até aqui, se afirmava como estratégica para o desenvolvimento sustentável da região”, salientou.
Questionada por escrito pela Lusa, fonte oficial do Centro de Artesanato e Design dos Açores disse que “a direção do COFIT solicita anualmente um apoio financeiro que atinge cerca de 40% do orçamento global apresentado, o que não corresponde ao peso/impacto que o artesanato representa no âmbito da Feira de Artesanato e Sabores Tradicionais, a julgar pelos relatórios de atividades enviados, entre outros indicadores”.
“A direção do COFIT negligenciou o apoio do CADA entre 2022 e 2024. Não aceitou o valor atribuído em 2022 e, nesse seguimento, em 2023 o CADA manifestou a sua indisponibilidade, tendo no ano seguinte (2024) proposto um contrato-programa que também ficou sem resposta por parte da direção do COFIT”, revelou.
O CADA alega que, além do apoio financeiro, “disponibilizou sempre os seus serviços na divulgação do evento junto dos artesãos e artesãs, designadamente através da recolha das inscrições, e no empréstimo de estruturas do tipo quiosque”.
O Centro de Artesanato e Design dos Açores acrescentou que expandiu a rede regional de feiras de artesanato a outras ilhas, “o que implica um incremento do investimento em logística e equipamentos de exposição”.
Já a Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas disse apenas que o apoio está suspenso “temporariamente” e que será “reavaliado oportunamente”.
“Face à necessidade de priorizar no plano e orçamento da Região Autónoma dos Açores para 2026 a execução dos projetos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e pelo Programa Operacional Açores 2030 (PO2030), não são aceites candidaturas no âmbito do sistema de incentivos no âmbito do D.L.R. n.º 18/2005/A, de 20 de julho”, lê-se na página da Internet da tutela.
Numa resposta a um requerimento do PS sobre este sistema de incentivos, o executivo açoriano revelou, no final de janeiro, que a suspensão está prevista até ao final deste ano.




