Em janeiro deste ano, no meio de tanta desgraça, passou despercebida a comunicação da Secretaria do Turismo acerca dos investimentos para 2026, no que concerne a projetos de promoção cultural dos Açores enquanto destino turístico.
A carta enviada aos agentes culturais veio pela pena da, já exonerada, diretora regional, mas sabemos que numa casa onde manda uma dama de ferro, tudo parte do gabinete de sua excelência, com conhecimento e carimbo formal, mesmo que não se veja, para se poder negar se for preciso.
Enquanto, a Hora do Conto da Biblioteca de Angra se tornava notícia, e se falava do congelamento de todos os fundos para os museus e bibliotecas da Região. Enquanto no Desporto se procurou sangrar as associações e clubes que fazem pelo arquipélago aquilo que o Governo raramente fez. Enquanto se discutiam graves e agravantes, o turismo retirou-se de jogo, discretamente. Depois de cinco anos a fazer bandeira dos números, a secretária Berta Cabral roeu a corda que sustentava projetos culturais de grande relevo para as nossas ilhas.
É preciso sublinhar que estes programas são fundos de investimento, antes que venha algum ser espumar sobre a dependência de subsídios do setor cultural. Conceder verbas para festivais de teatro ou de música, para um ciclo de cinema ou para uma festa de verão, não é alimentar vícios, é contribuir para a criação de produto e oferta para quem nos visita. E a nossa cultura é um dos principais fatores de atratividade, seja ela a das marchas e bailinhos, filarmónicas ou folclores, peças de teatro, cinema, artes plásticas ou música clássica. Quem discrimina são os outros senhores. Para qualquer açoriana ou açoriano de verdade, falar de cultura é falar de todos, todos, todos.
Assim, o corte que Berta Cabral anunciou por via de Rosa Costa, mais não foi do que um golpe letal em muitos dos projetos que se avizinhavam para 2026. Ao que se apura nas ruas da amargura, há rombos elevados que terão consequências significativas.
Aqui, é preciso dizer com clareza: as e os agentes culturais necessitam de se organizar! Melhor e mais eficazmente. Mesmo sabendo que a ameaça da SAD do Santa Clara ter sido a impulsionadora, para o recuo do Desporto, na sua missão para destruir os investimentos da Palavra Açores, houve, também, confronto com um movimento popular substancial e unido. O mesmo se pode passar na Cultura e no Turismo.
Sem património cultural e sem identidade artística, uma parte importante das nossas ilhas afundará no obscurantismo. É tempo de protestar. Manifestações em frente do gabinete da Secretária. Envios de cartas, emails ou sinais de fumo ao cuidado do, recém-nomeado Diretor. Afirmar que não se pode brincar com a nossa Cultura, e que sem ela somos apenas submissos servos de uma gentrificação desenfreada. Organizem-se e mostrem aos poderes vigentes que sem vós, eles e elas não merecem ser reeleitos. É tempo de acabar com o conceito de cultura dependente e mostrar que não são as pessoas que devem temer os seus governos. São os governantes que devem trabalhar para as pessoas.
Finalizo, deixando uma questão ao diretor regional Carlos Farinha: pretende retroceder na decisão de cancelamento de apoios, no âmbito do Decreto Legislativo Regional n.º 18/2005/A, de 20 de julho, que, ao longo destes 20 anos, que segundo os relatórios, representou “investimento com retorno económico direto e indireto para diversos sectores dos Açores”?




