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Qual é o oposto de fascista? Eis um desafio que nos foi recentemente colocado por um decisor político. Numa dissertação digna de um sketch de comédia (ou neste caso uma rábula popular, que aquela gente não gosta de comediantes, muito menos de gatos fedorentos), o senhor, em questão, fez uma breve reflexão sobre essa dúvida que lhe terá surgido numa profecia, quiçá transmitida através do seu patrão que também é pastorinho de Fátima nas horas livres.

Com o título de “Zequinha ou a beleza de matar esquerdalhos” é, desde o começo, uma reflexão que espelha o elevado nível de boçalidade com que nos cruzamos nos dias que correm. O nome Zeca, imaginamos que foi escolhido porque, para os salazarentos, o único nome masculino de esquerda é Zeca Afonso. Talvez na mesma forma que insultam com toda a sua xenofobia os “maomés” desta vida, e outras coisas que tal.

Depois da falta de imaginação no título, segue-se a ignorância acerca do tema abordado. Para o autor, a peça é uma espécie de metáfora, crítica histórica ou não sei o quê, porque parece não a ter lido ou assistido. Mas, quer dar uma opinião, claro. O que ele sabe é que fala em fascistas e, portanto, fica indignado. Não que o seu partido se assuma fascista, isso é que não! Mas, ficam sempre indignados quando se critica o fascismo, vá-se lá saber a razão.

A raiva é contra a peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, documento de intervenção social que foi convidado a vir a Ponta Delgada este ano, pela ocasião da Capital Europeia da Cultura. É um apelo ao pensamento e um reconhecimento dos dias negros que correm, onde é urgente pensar no que faremos quando vierem buscar os nossos vizinhos. É um ato de revolução, criticado por movimentos de extrema-direita e neonazis, no mundo inteiro. Um texto bonito, e tocante, já publicado em livro, e muito mais complexo do que qualquer tentativa de agitação populista, que termina confrontando-nos com um dilema moral.

O golpe de graça da fraca tentativa chega quando o autor apresenta a sua provocação, incitando à morte de “esquerdalhos”, por contraponto ao assassinato de fascistas. Para o seu patrão e para os seus colegas, o contrário de fascista é ser de esquerda. Tal como o ditador americano, amiguinho, que declarou guerra ao grupo antifascista, também estes simpatizantes da arma e do ódio querem ser fascistas sem dizer que o são.

O problema, caro senhor, não é a cultura, nem as peças de teatro. O problema não é a falsa narrativa de que ser contra o fascismo é desunião. O problema nem sequer foi a morte de fascistas, que foi necessária e justa, conforme o provou Nuremberga. O problema é quem quer destruir a democracia, instrumentalizando coisas simples para criar a ideia de que quem não é de esquerda é facho. Facho, é quem quer destruir a nossa cultura de liberdade e revolução. Na democracia cabem (quase) todos. Menos os que querem vender a banha da cobra e meter pessoas contra pessoas.

Não precisa de colocar o tal capacete de que fala, fique descansado. O fascismo não se combate com pedras. Antes pelo contrário. A violência não é a nossa arma. A nossa, é a poesia, a igualdade e a fraternidade. Tudo o que vocês desprezam.

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