Um romeiro faz, em média, 50 mil passos por dia, passando pelo maior número possível de igrejas e ermidas, em oração, nas romarias quaresmais de São Miguel, nos Açores, que regressam sábado às estradas com cada vez mais jovens.
Um total de 51 ranchos, envolvendo mais de 2.500 romeiros, percorrem este ano as estradas da ilha de São Miguel durante o período da Quaresma, numa tradição com mais de 500 anos.
Em declarações à agência Lusa, o presidente da Comissão Administrativa do Movimento de Romeiros de São Miguel, Rui Melo, disse que este ano “há um decréscimo de dois ranchos, um da Ribeira das Tainhas e outro da Matriz de Ponta Delgada, que não vão para a estrada”.
Rui Melo, da Comissão Administrativa que organiza as romarias em nome da direção do movimento, destacou à Lusa o aumento da participação de jovens, a partir dos 16 anos.
“Isto dá-nos esperança na continuidade das romarias”, sublinhou Rui Melo, que integra o rancho da Matriz de Vila Franca do Campo, salientando que alguns ranchos registam inclusivamente um crescimento.
É o caso do rancho que integra, que contará este ano com cerca de 70 romeiros.
Além de muitos jovens, as romarias, cujos últimos ranchos regressam às suas localidades na Quinta-feira Santa, também integram emigrantes nos Estados Unidos da América e Canadá.
Rui Melo explicou que as romarias tiveram início “em Vila Franca do Campo, a seguir ao grande terramoto de outubro de 1522”.
Na procura de “proteção divina, as populações organizaram-se para rezar a Nossa Senhora do Rosário”, dando início a uma tradição secular e que valeu a Vila Franca do Campo a designação de “Vila das Romarias”.
“As romarias não se comparam a caminhadas de trilhos. Um rancho de romeiros movimenta-se sempre em oração. Há romeiros que repetem a caminhada durante anos”, assinalou.
Cada romeiro levanta-se todos os dias às 03:00 e inicia a caminhada pelas 04:00, até às 19:00, sempre em oração — cantada ou em silêncio, sendo a ‘Ave-Maria’ a mais entoada.
“Há quem participe para pedir solução para as suas dificuldades. Há quem caminhe para agradecer. Há outros que integram a romaria, porque os amigos já fazem a caminhada. É uma decisão singular de cada pessoa”, disse ainda Rui Melo.
Durante a semana na estrada, os romeiros pernoitam maioritariamente em casas particulares, sendo também acolhidos em salões paroquiais, sobretudo nas freguesias mais pequenas.
“Temos sempre um grande respeito e empenho para que tudo corra bem, com muita fé e educação”, sublinhou.
Os romeiros assumem ainda responsabilidade de rezar pelas intenções que lhes são confiadas pelas populações, quando passam pelas localidades.
“O ‘procurador das almas’ regista os pedidos — de agradecimento ou em horas de aflição — que são depois rezados em voz alta pelo rancho”, disse Rui Melo, vincando que esta prática é encarada pelos romeiros como “uma grande responsabilidade”.
Um rancho é composto por um irmão mestre, que lidera e coordena, um contra-mestre, um procurador das almas, dois guias e, normalmente, dois dispenseiros, elementos que “colaboram para que nada falte” no que se refere à preparação espiritual, nas reflexões diárias, nas refeições e na segurança da caminhada do grupo.
As romarias são antecedidas por um retiro espiritual, que se realizou em janeiro, no concelho do Nordeste, destinado aos responsáveis dos ranchos, acrescentou.
Este ano decorrem sob o lema “Batizados na Esperança”, tendo o bispo de Angra, Armando Esteves Domingues, proposto aos romeiros açorianos um conjunto de 14 intenções de oração que vão orientar espiritualmente as romarias, segundo o sítio na internet Igreja Açores, da Diocese.
O Governo Regional determina a dispensa de serviço dos trabalhadores da Administração Pública Regional que participem nas romarias que se realizem nas ilhas de São Jorge, Graciosa, São Miguel e Terceira, durante o período da Quaresma.




