PUB

Por estes dias, recebi um pedido para assinar uma petição pública defendendo a continuidade da Hora do Conto, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. Muitas das pessoas que lerem este texto também terão recebido. Assumo a incredulidade só com o título. Então não há dinheiro para pagar uma hora do conto?

Foi um susto passageiro. Agravou-se rapidamente. É que, como muitas e muitos açorianos, eu também tenho ouvidos nos corredores do Palacete Silveira e Paulo. E não são os ouvidos que as teorias da conspiração podem fazer crer. São ouvidos discretos. Em todos os sentidos da palavra. O que me chegou foi a informação, já desmentida, numa breve resposta ao Diário Insular, mas que me parece bater certo com este cancelamento da Cultura. A nova diretora regional, depois de ter demorado meio semestre a tomar posse, reuniu as suas chefias para informar que, em 2026, não há dinheiro. Sim, leram bem. Este ano, as bibliotecas e museus da Região vão congelar muitos dos seus planos de atividades, algo que, perante o Diário Insular, a Secretaria se escudou de confirmar…ou desmentir.

Comecei por pensar que poderia ser um ato performativo, estilo instalação artística, a modos que invisível, para celebrar os 50 anos da Autonomia e a efeméride da Capital Portuguesa da Cultura. A nossa liberdade permite que nada façamos! Algo assim, meio para o abstrato. Mas não. É informação transmitida em nome da Senhora Secretária, que nem esteve na reunião. Não há dinheiro para a Cultura. Outra vez. E desta vez nem o arroz escapa. Prato vazio para quem quer usar os nossos serviços externos para representar o arquipélago.

Agora, entendo a “fuga” da anterior diretora da cultura, provavelmente por antever a crise profetizada. Não se esperava era que fosse desta dimensão. Ao que é possível apurar, junto de quem de direito, os diretores e as diretoras estão de cabelos em pé. Dezenas de fornecedores de serviços, alguns deles apalavrados e outros com compromisso firmado, receberam nota de cancelamento. Entre eles, a hora dos contos infantis na biblioteca de Angra. São as crianças que perdem. Os adultos. Os turistas. Segundo consta, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo já terá indicado a sua disponibilidade para assegurar a manutenção da Hora do Conto, resolvendo mais um imbróglio da ineficácia governamental. Assim o espero. Caso contrário, fica tudo ao abandono, como se fosse um cenário de guerra ou uma autoestrada depois do rio galgar. Esta é a política do governo de Bolieiro, secundada pela extrema direita e validada pela atual diretora e pelas suas chefias diretas, que nada fazem para apaziguar as direções dos museus e bibliotecas. Cancelem. Esqueçam. A cultura agoniza. Tal como num conto infantil do século passado, são os vilões de cinema que se levantam para nos engolir. Deixo um abraço solidário a quem trabalha na Direção Regional da Cultura e não tem culpa de nada. Querem fazer, mas não vos deixam. Eu sei. Desejo-vos força e resiliência. Tal como nos contos infantis, um dia esta sombra irá passar. Bem que há abaixo-assinados a pedir o regresso de D. Sebastião. Até lá, é aguentar.

Já agora, talvez fosse interessante conhecer a distribuição das verbas orçamentadas entre o Teatro Micaelense e as restantes ilhas, no contexto regional.

PUB