A semelhança entre os verbos privatizar e privar não é um acaso. Em ambas as situações, há alguém que perde, a quem se retira algo. Nas privatizações, o sujeito que é privado dos seus bens está bem identificado: é o domínio público, ou seja, todos nós.
Apesar das tentativas para o disfarçar, as privatizações são opções políticas com forte componente ideológica: quem privatiza, vê o interesse público como dispensável ou secundário. Para o disfarçar, procura envolver essa opção num manto de modernidade, de racionalidade, de liberdade de opção ou, pelo contrário, de fatalidade e de urgência, por não haver alternativa. Nada é mais falso!
Vem isto a propósito da privatização da SATA. Está em causa privar a Região de uma alavanca essencial ao nosso desenvolvimento. Na prática, trata-se de perdermos uma companhia que pode ser rentável, porque ninguém entra nestes negócios para perder. Quem compra, sabe que tem os lucros garantidos.
As recentes declarações do júri da privatização e do presidente da empresa são esclarecedoras. Mais: vieram dar razão aos que, ao longo dos anos, estiveram quase sozinhos a recusar que a privatização defendesse a companhia e o interesse público regional. Demonstrou-se, agora, que a privatização da SATA contradiz os interesses desta e da Região!
Aos Açores, o comprador exigiu que assumisse uma despesa de 600 M€ – mais de 10% do PIB regional –, que sairão do nosso bolso, que garantisse os lucros e a assegurasse as despesas de manutenção. Ou seja, o comprador adquiriria a companhia com dinheiros públicos, pagaria menos do que o valor do património da SATA e nem sequer asseguraria uma fração dos postos de trabalho…
Esta é a definição perfeita de um negócio que serve o interesse de quem compra e prejudica o de quem vende. Os erros políticos são exteriores à companhia e devem ser assumidos por quem os cometeu – incluindo o atual governo regional. Se forem retificados, a empresa será economicamente viável – como já foi no passado. Quem considerar não ser capaz de colocar a SATA num bom caminho, também não terá condições para governar a Região, nem defender o interesse público regional!




