Não sou leitora assídua de jornais desportivos, mas um texto publicado recentemente no Jornal “A Bola” captou a minha atenção. Tratou-se de um artigo de Rui Almeida, pessoa que muito estimo, disponível online para consulta, com o propósito de dar a conhecer a quem menos sabe, a triste realidade que enfrentamos nos dias que correm, principalmente no que concerne à pasta ministerial da Cultura, Desporto e Educação. Não necessariamente por essa ordem, como sabemos.
Rui Almeida fala da tristeza de um povo que celebra 50 anos de Autonomia a atirar ao lixo o seu estatuto autonómico, mas poderia ter falado do subsídio de mobilidade, em vias de reforma definitiva, no que depender da Spinumviva. Fala nas questões culturais, referindo de forma clara a tristeza que é ver políticos de marca branca, que só servem para aparecer na fotografia, a liderar esses assuntos.
Assim foi na tal inauguração de Ponta Delgada – Capital Portuguesa da Cultura, que decorreu por estes dias, com, pelo menos, mais de um mês de atraso. Um projeto a sério teria sido lançado a meio do ano passado… Nesse dia, subiram ao palco as caras conhecidas da política micaelense, apoiadas por uma Ministra da Cultura que veio tomar uns drinks e beliscar uns canapés para dizer que de ilhas nada sabe, e muito menos quer saber. Nascimento Cabral fez um breve ensaio de prosa trágico-cómica, para refletir a importância do que nunca lhe importou. José Manuel Bolieiro, em palco, falou do orgulho que tem na Cultura, para depois junto aos jornalistas dizer que não sabe, nem quer saber, onde é que vão arranjar o dinheiro que falta para fazer aquilo que ele não quer fazer.
No mesmo artigo, Rui Almeida continua desbravando a questão da Palavra Açores, projeto de promoção do arquipélago através do Desporto, agora reduzido a uma polémica de corredor, onde Secretárias enfrentam a verdade com meias mentiras, procurando esconder e disfarçar a dura realidade: chacinaram de tal forma o orçamento que já nada sobra para promover as e os nossos atletas. É essa a sensação que encontramos no sorriso amarelo do senhor Diretor Regional, sempre que é obrigado a vir escudar as ingerências de quem se encontra acima dele. Depois de erros, atrás de erros, com campos de futebol, modalidades esquecidas ou votadas à extinção, e outras tristezas que tal, o culminar dessa decadência acontece com a suposta pausa na Palavra Açores, que veio a ser confirmada pela Secretária do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, para ficar claro quem é que manda ali no assunto. A Secretária do Desporto, que nunca o quis ser, certamente não se importou.
Rui Almeida termina o seu texto apelando ao bom senso e à aposta na Cultura e no desporto. Provavelmente, por falta de caracteres, faltou mencionar que os Açores celebram 50 anos de Autonomia, mas também estão a comemorar mais ou menos cinco anos de governação de mão dada com a extrema-direita, onde vale tudo para sobreviver, e o bom senso é artefacto arqueológico. Aqui, nestas brumas, resta apenas resistir e aguentar, como se fosse mais um sismo, esperando que quando Bolieiro passar, ainda restem ilhas para habitar.
Rui Almeida, bem-haja pela persistência em mostrar que somos mais, muito mais, do que vacas e pastos.




