Sempre soubemos mais de Portugal do que o continente de nós. A democracia, a informação e a mobilidade vieram substituir o velho conhecimento da educação salazarista, que nos obrigava a decorar as linhas férreas, os rios e seus afluentes, as divisões administrativas do território continental e províncias ultramarinas, sem que fizéssemos ideia do que isso era. Sem alguma vez ter enxergado um comboio, vivendo em lugarejos onde a camioneta da carreira não ousava ir, um moçoilo que frequentasse a instrução primária nas nossas ilhas era obrigado a saber isso e tudo mais o que o Estado Novo considerava conveniente para a coesão da Nação – entenda-se a manutenção e sobrevivência do regime.
Digo isto a propósito de uma notícia, estampada na página da internet de um canal nacional de televisão: “Sequências de tempestades são raras e a culpa é do anticiclone dos Açores”.
Hoje, sabemos, a maioria dos leitores fica-se pelo conteúdo dos títulos. A instantaneidade e o volume de notícias e, convenhamos, muita preguiça mental, ditam o consumo rápido e efémero da informação. Ao ler aquele título, muita gente continuará a pensar o que sempre julgou saber sobre o nosso anticiclone, aliás, ficará até mais convencida da sua “verdade”, que a região de altas pressões atmosféricas geradas nesta zona do Atlântico originam o mau tempo, as nossas quatro estações num só dia.
E os mais incultos jamais distinguirão ciclone de anticiclone. Nem que uma tempestade lhes varra toda a região cerebral.
Entre os velhos compêndios escolares e velocidade vertiginosa do scroll, não hesito.


