Autor: PM | Foto: PICOWINES
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A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico (Picowines) anunciou o lançamento de dois vinhos que apresenta como expressões distintas do mesmo território vitícola, marcadas pela origem vulcânica da ilha, pela influência atlântica e por uma viticultura moldada por séculos de adaptação humana à paisagem.

Em causa estão o Ilha do Pico Licoroso 1998, edição limitada a 470 garrafas, e o Arcos Vulcânicos 2021, dois rótulos que traduzem leituras separadas pelo tempo, mas ancoradas na mesma matriz geográfica e cultural.

A viticultura do Pico é frequentemente descrita como uma das mais singulares e exigentes do mundo. As áreas de produção concentram-se sobretudo no concelho da Madalena e, em São Roque do Pico, na freguesia de Santa Luzia, sempre a altitudes iguais ou inferiores a 100 metros. As vinhas desenvolvem-se em condições extremas, plantadas nas fissuras da rocha-mãe, em solos vulcânicos, entre 50 e 300 metros do mar, expostas de forma permanente à influência da maresia.

Segundo a descrição técnica associada à produção local, o mar infiltra-se no subsolo e mistura-se com a água doce da chuva, originando água salobra que alimenta as raízes das plantas. Os icónicos currais de pedra, muros erguidos manualmente há cerca de cinco séculos, protegem as vinhas do vento e do sal, criando um microclima mais quente e estável. Esta paisagem vitícola foi classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004, reconhecimento reforçado em 2014 com a classificação da Paisagem Protegida de Interesse Regional da Cultura da Vinha da Ilha do Pico.

É neste contexto que surge o Licoroso 1998, recuperando uma tipologia historicamente associada à ilha. Desde o século XVIII, os vinhos licorosos do Pico, maioritariamente a partir da casta Verdelho, alcançaram notoriedade internacional, destacando-se pela capacidade de envelhecimento e resistência ao tempo e ao transporte marítimo. Este vinho estagiou 27 anos em casco de carvalho, num processo prolongado que a cooperativa enquadra como continuidade viva desse legado.

Produzido com uvas de vinhas velhas da zona da Criação Velha, colhidas em estado avançado de maturação, apresenta cor topázio e um perfil aromático com notas de laranja cristalizada, citrinos, frutos secos e apontamentos salinos. Em boca, evidencia acidez marcada, estrutura firme e final persistente, assumindo-se como um licoroso de perfil meio-seco, equilibrado entre doçura e frescura.

Já o Arcos Vulcânicos 2021 é apresentado como uma abordagem contemporânea ao mesmo território, integrando uma linha de vinhos que procura evidenciar a mineralidade, a frescura e a expressão atlântica das castas cultivadas na ilha, num registo alinhado com tendências atuais de valorização da origem e da identidade do lugar.

Citado numa nota da cooperativa, o presidente da Picowines, Losménio Goulart, refere que os dois lançamentos espelham uma estratégia assente na valorização da identidade local, conciliando memória, técnica e visão de futuro, com a ambição de afirmar vinhos diferenciadores e fiéis ao território.

A cooperativa sublinha que cada vindima no Pico resulta de um contexto exigente, onde a viticultura é frequentemente descrita como um trabalho de resistência. A combinação entre geologia, clima e intervenção humana ao longo de mais de cinco séculos continua, segundo a Picowines, a moldar vinhos cuja singularidade está profundamente ligada à ilha.

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