Aqui há uns dias, durante duas horas escutei um programa de comentário político onde se sentava uma senhora que se manifestava surpreendida com a intenção de António Costa votar em António José Seguro.
O tempo que ali perdi foi terapêutico. Sintomático. Serviu para melhor compreender o grande desafio que agora enfrentamos. A televisão portuguesa, e em particular a que se arroga de ser informativa, sabe que pode conquistar audiência com a polémica do dia. E por isso, alimentou um fenómeno em torno de uma tontaria. Alguém teria dúvidas de que Costa votaria pela democracia contra a ditadura? Claro que não. O objetivo não era esse. Era abraçar a cultura do incorreto, para alimentar fogos e ódios. Continua a resultar.
Por outro lado, e bem mais preocupante, ainda que menos vezes referenciada, surge a postura do apóstolo Núncio, primeira linha do falecido CDS que ainda se arrasta pelas terras do cemitério onde Montenegro o depositou para fingir ter alguma existência real. Nesse âmbito, o senhor anunciou que o voto democrático não é só num dos lados. Era o que faltava! Faltava, também, alguma vergonha a quem se veste com a democracia e a cristandade, para não saber distinguir entre o diabo, o Inferno e Seguro. Freitas do Amaral não estaria desapontado com Núncio porque muito antes de partir já tinha reconhecido a decadência do seu partido, como sabemos.
Da Spinumviva não se esperava outra postura que não a da duplicidade. Um dos poucos talentos do aprendiz de Coelho é o de falar durante muito tempo e não dizer nada que se aproveite, afinal de contas. Com um olho no facho e outro no eleitorado de extrema-direita, que ainda sonha conquistar, Montenegro assumiu o ridículo papel neutral, envergando-o com orgulho em plena Assembleia. Claro que há por aí uns iluminados que encontraram umas indiretas no discurso dele, apelando ao voto em segurança. Mas, ter um primeiro-ministro incapaz de enfrentar a personagem que disse ser dono da direita diz muito do estado a que isto tudo chegou.
Assim, Portugal navega uma vez mais à deriva. Os resultados de 8 de fevereiro são mais incertos do que muitos querem fazer ver. E, ganhe quem ganhar, já Ventura, os salazaristas, e mesmo os recém-apreendidos membros do 1143, tiveram a sua simbólica vitória. Tal como agora compreendemos que a ditadura de Trump mudará o mundo de forma definitiva, também Ventura já nos veio mudar.
O que fazer? Não há poções mágicas. Mas, podemos começar por olhar os que vão na frente desta batalha. Os Estados Unidos mostraram que jogar ao centro não é viável, perante a loucura do novo fascismo. No Brasil, a queda do ditador evidenciou que isso não faz com que o país volte ao normal do dia para a noite. No Reino Unido, talvez encontremos uma pista mais interessante.
A refundação da esquerda na Grã-Bretanha gira em torno da figura de Zack Polanski. Um homem do povo, com uma figura e postura mediana, sem grandes evidências de ser especial. Até abrir a boca. Há, na maneira como se exprime, um genuíno desejo de ser mais e melhor. E levar consigo o resto do país. Não pela força da imposição, mas pelo poder da mudança. Polanski, e o Partido Verde, substituíram as figuras ao centro-esquerda e direita, dando esperança a quem se recusa a votar no chapéu do separatismo fascista de Nigel Farage. Fugindo do centro, sem atacar o mesmo, e focando as grandes causas fraturantes do nosso tempo: economia, habitação, saúde e educação.
É um caminho novo feito com velhas ferramentas britânicas. Acredito que esse pode ser o percurso para fazer frente ao salazarismo que se levantará nas próximas legislativas. Uma esperança verde, sem pedantismos, nem direitos de moral. Até lá, face ao que temos, que é muito pouco, mas é melhor que nada, a escolha é evidente: Seguro terá que ser presidente.




















