Em cada ciclo eleitoral, a intensidade do debate sobe e em simultâneo os ânimos tendem a exaltar-se. A tentação de transformar a política numa arena sem regras aparece consoante os resultados das sondagens e o posicionamento de cada candidato ou partido. A ideia de que pode valer tudo em campanha, surge, regra geral, disfarçada de espontaneidade, de frontalidade ou de uma espécie de “autenticidade”. Todavia, parece-me importante realçar que esta normalização, ou pelo menos a sua tentativa, não é um sinal de vitalidade da democracia. É sim, na verdade, um dos seus sintomas maiores de fragilidade.
A democracia, tal como a conhecemos, não é somente o direito de disputar o poder num determinado contexto. É o dever de o disputar dentro de um conjunto de limites, alicerçados em princípios, que garantam igualdade, verdade, e respeito pessoal e institucional. A verdade é que quando esses limites são ultrapassados, os processos eleitorais deixam de ser um espaço que propicia a escolha esclarecida e passa a ser um jogo de resistência emocional, ruído e manipulação.
Não se trata de proteger o candidato A ou B. Trata-se sim, de proteger o eleitorado. Se uma campanha for pensada e construída com base em insinuações infundadas ou, por exemplo, com base em desinformação, ataques pessoais ou medo, não esclarece. Por outro lado, tende a condicionar e substitui o debate por julgamentos morais, o que reduz o cidadão a uma espécie de “target” comunicacional, não sendo encarado como um sujeito devidamente informado.
Há quem confunda, ou queira confundir, agressividade com coragem e ruído com autenticidade. Mas, na minha opinião, uma democracia madura mede-se precisamente pela capacidade de disputar uma eleição sem corroer o próprio terreno onde ela se insere, onde essa disputa acontece. Quando tudo é permitido, nada nem ninguém é confiável. E quando nada é confiável, a escolha passa a ser condicionada e reativa.
A normalização de que tudo vale empurra campanhas para níveis cada vez mais baixos e cria uma espiral descendente em que quem tenta manter padrões mínimos parece ser ingénuo ou incapaz de disputar uma eleição aos dias de hoje.
É, portanto, essencial voltar a respeitar o espírito do processo democrático. Garantir uma competição pelo voto que seja dura, mas justa. Intensidade sim, mas esclarecimento acima de tudo. Defender a existência de limites em campanhas eleitorais não é censurá-las. É preservar a democracia. Preservar o espaço público como um lugar de escolha consciente, de responsabilidade cívica e política.
Porque uma democracia que aceita tudo, mais cedo ou mais tarde, começa a perder aquilo que a torna digna de ser defendida. Fica o lembrete para o que resta desta campanha presidencial.


