Portugal caminha para as eleições presidenciais de 2026 num dos momentos mais frágeis e paradoxais da sua democracia recente. Nunca o país teve tantos momentos eleitorais como agora, nunca se falou tanto de instabilidade, de crises em vários setores da sociedade. No entanto, nunca as eleições presidenciais pareceram tão pobres em visão, ou em ambição. Portugal está cansado, desconfiado e fragmentado e, por aquilo que foram os debates presidenciais e a campanha eleitoral, o campo em que se inserem estas eleições é o espelho perfeito de uma espécie de exaustão coletiva.
O problema não é apenas económico ou conjuntural. É bem mais profundo. Portugal enfrenta uma erosão lenta, erosão essa que é muito perigosa na medida em que não cria sobressaltos. Cria hábito. Habitua-nos à mediocridade, à ideia de que não dá para mais, no fundo, à normalização de um Estado que responde mal, de uma política que promete pouco e de uma democracia que funciona, mas que não entusiasma. Parece-me ser este o pano de fundo em que se insere a corrida a Belém. Portugal precisa de um rumo, mas parece ter perdido a capacidade de exigir liderança.
Se olharmos para a Constituição da República Portuguesa, esta atribui ao Presidente da República um papel que vai muito além do simbólico. Cabe-lhe a habilidade de ser árbitro, ser a voz moral, um fator de estabilidade, e acima de tudo, a referência num sistema político cada vez mais fragmentado. Num tempo de ruído permanente, crises sucessivas e descrédito institucional, o país precisava de um presidente que fosse realmente capaz de mobilizar, de recentrar a democracia, de falar para alguém dos ciclos eleitorais e de devolver sentido à ideia de futuro coletivo. Alguém que desse direção.
Temos, nestas presidenciais, uma multiplicidade de candidaturas, em que muitas delas estão mais preocupadas em ocupar espaço mediático do que em apresentar uma visão estruturada para o nosso país. Temos propostas genéricas e uma grande ausência de ambição e ousadia política.
O eleitorado vê-se confrontado com um leque de candidatos que não responde ao essencial e isso é assustador. A fragmentação das intenções de voto, a quase certa segunda volta e a ausência de um claro favorito não são apenas dados refletidos nas sondagens. São sinais claros de que os portugueses já não projetam esperança em figuras políticas e que vota, cada vez mais, por exclusão do que por convicção e isso é profundamente perigoso para uma democracia.
Portanto, caros leitores, o maior risco destas presidenciais não é a vitória deste ou daquele candidato. É sim, a consolidação de um sentimento coletivo de que “tanto faz”, do “são todos iguais”, do “não muda grande coisa”.
A pergunta que me atrevo a fazer é se ainda somos capazes de exigir algo à nossa classe política ou se já nos resignámos à mediocridade institucional como algo de carácter permanente no nosso sistema democrático.




















