2026 começou com uma operação militar, eufemismo utilizado para adoçar o ataque terrorista, promovido por um país ocidental, travestido com a capa da liberdade e da soberania mundial. Começou com uma invasão e com o bombardeamento de territórios onde habitam inocentes, debaixo do manto da justiça e da libertação dos povos. Começou com um ato de guerra, crime internacional que ultrapassa qualquer cenário distópico imaginável há apenas duas décadas. Escrevo estas linhas na dura manhã de sábado, dia 3 de janeiro. Quando forem publicadas, provavelmente já muita coisa terá mudado. Mas não posso deixar, em consciência, de escrever sobre o que aconteceu, nem que seja em jeito de breve nota e grito humedecido pelas lágrimas que choro por um mundo sem retorno.
O que se passou na Venezuela é, meramente, a continuação de uma política de impunidade que os Estados Unidos promovem há mais de um século. Talvez sempre o tenham feito. Aproxima-se a celebração dos 250 anos daquele país, e só com eles podem celebrar as pessoas sem alma que por aí andam. Não perderei tempo a debater comparações. Não tenho linhas escritas em defesa do regime de Nicolás Maduro. E não admito que quem defende biltres me venha dar lições de moral. Até porque Javier Milei está sentado ali ao lado, a fazer a sua ditadura, com o apoio dos que defendem a queda da Venezuela.
Por isso, não perderei tempo a explicar os motivos subjacentes ao sucedido. É sabido. Não há vergonha. A hipocrisia é causus belli. As venturetes celebram as lágrimas dos esquerdistas. E ninguém quer saber dos que morrem, e dos que morrerão nos anos que se seguem. A senhora que ganhou o prémio Nobel da Paz festeja as bombas que choveram na sua cidade. O mundo perdeu-se.
Assim vai a coisa, por lá. Com o apoio dos que andam por cá. E não me refiro apenas aos que cegamente seguem o quarto pastorinho. A política portuguesa, tal como a do resto do mundo, está envenenada. Se ainda restassem vozes na Direita, que não apenas a do Chicão, talvez pudesse haver esperança. Mas perdemos a Direita em Portugal. O que nos resta é um conjunto de oportunistas a lamber as botas aos grandes empresários e consultores desta vida. Gente que só sabe o que quer dizer social-democracia porque foi perguntar ao robot da Inteligência Artificial.
Ora vejamos o caso do senhor Cotrim, ou do amigo Rui Rocha, onde o candidato presidencial tem feito um trabalho que reconheço como eficaz. Aparece em todo o lado, a tomar uns copos, sem a gravata e com os três botões desapertados. Surge com um sorriso ao lado das velhinhas e com uma voz firme e paternalista junto dos mais jovens. Tudo o que ele faz é pensado por um conjunto de cabeças do marketing liberal que estão a construir o cenário que vende a sua existência como alternativa viável ao fascismo dos colegas de bancada.
Mas, há momentos em que o verdadeiro Cotrim aparece, mesmo quando não quer ser visto. Não gosto particularmente deste novo modelo de entrevistas políticas, que vão ao Goucha fingir que são uns coitadinhos, ou ao Geirinhas dizer umas larachas para parecer que estão na moda. No entanto, esses cenários vão sendo úteis para vermos a máscara quebrar, de quando em vez. Assim, foi a conversar com Guilherme Geirinhas que Cotrim relevou uma falta de capacidade de encaixe que deveria assustar qualquer jovem eleitor do liberalismo. Nos clipes já divulgados, encontramos vários momentos em que o tipo “cool” desaparece para dar lugar a um mau-feitio que arrepia. E, quando confrontado com a escolha entre 25 de dezembro e 25 de abril, não hesitou em escolher, duas vezes seguidas, o Natal, para depois ainda resmungar sobre testes de pureza política. Por falar em pureza, não esqueçamos o amigo Rocha, que certa vez colocou Messi e Milei acima do Papa Francisco no panteão de pessoas de bem. Todos, todos, todos, mas só os que tiverem dinheiro.
Nessa mesma onda da extrema-direita liberal está Montenegro, com as suas duas tristes mensagens de Natal e Ano Novo que enviou ao nosso país. A maior parte não teve paciência para ouvir o consultor-chefe do governo Spinumviva, e limitou-se a apanhar os soundbytes sobre futebolistas, que já de si são péssimos. Todavia, uma análise mais cuidada aos dois apelos do discípulo do Coelho revela a filosofia evidente deste governo. Amanhem-se, que nós já nos vamos amanhando. Quem não se puder amanhar, temos pena.
Aliás, isso ficou claro a 2 de janeiro, quando os mesmos tipos que privatizaram os CTT deram ordens para fechar a torneira dos reembolsos referentes ao subsídio social de mobilidade, por tempo indeterminado. Claro que, com a indignação em curso, espera-se que a coisa dure pouco. Afinal de contas, um governo liberal só reage quando os empresários se revoltam. E os nossos já reclamam a cabeça dos Spinumvivas, por isso, é provável que a coisa esteja tratada até ao dia em que este artigo for publicado. Tal não invalida a gravidade do que se passou. Uma demonstração musculada de força por parte de Lisboa, a começar o ano em que é suposto celebrarmos 50 anos de Autonomia, mas que mais parece que vamos comemorar as chibatadas que o mestre Luís nos dá.
Montenegro assume como exemplo do espírito português o de Cristiano Ronaldo, jovem madeirense empobrecido, que partiu para conquista o mundo. É uma miserável tentativa de fazer uma parábola ao estilo de Jesus Cristo, que esquece a realidade onde se contam casos de violações, escândalos financeiros, e oportunidades únicas de sucesso com o apoio das grandes forças do fascismo internacional. Ronaldo é tudo menos um bom exemplo a seguir, como ficou provado nos recentes atos de meninice que realizou, dentro e fora do campo. Para a extrema-direita liberal, é um sucesso, porque lambe as botas aos grandes senhores do petróleo e da Casa Branca. Para quem tiver dois dedos de testa, Ronaldo é o espelho do país da Spinumviva: um pobre que ganhou demasiado poder e agora quer espezinhar os pobres que ficaram para trás.
Assim corre o nosso mundo, de Trump a Cotrim, e de Ronaldo a Montenegro. Uma torrente de erros sucessivos, alimentados pela desinformação e pelo eleitorado amargurado que se zangou consigo próprio. No país do Luís, o que se vai ter não é um mundo de CR7, mas de Carreiras Rasuradas a Zero. Já se esqueceram da reforma laboral? Eles não se esquecem. Enquanto não aprendermos a votar noutros, é o que merecemos. Feliz 2026! (?)




















