Era adolescente quando ouvi a canção, uma melodia simples, de quatro acordes em sol maior (I-V-iv-V), com rima alternada, também ao sabor popular, e uma grande riqueza no seu conteúdo que, apesar disso, o tempo foi apagando da memória. Mas o refrão ficou-me para sempre, pelo menos, passados umas boas dezenas de anos: “O ano novo / bem ou mal, ninguém adivinha/ é como o ovo / pode ser galo, pode ser galinha”.
Na viragem do calendário salta-me sempre à memória aquela música, ouvida numa récita de “Reis”, no salão paroquial da minha freguesia. Aparentemente, o tom popular, diria mesmo, rural, daquela canção não seria o mais adequado ao espaço citadino, com gente, pequenos e graúdos, pouco habituados às práticas da reprodução animal, a que a letra também aludia. Mas o dito refrão ultrapassava qualquer diferença cultural, sintetizava com perfeição a tentativa de adivinhar o que vai ser o novo ano à medida que ele se aproxima.
E ele já aí está. E mais uma vez, temos dois caminhos pela frente. Há sempre quem, no virar do ano, se deixe levar pelo pessimismo e antecipe apenas dificuldades e desventuras, em toda a parte, até na coisa pública, puxando para trás, temendo os desafios.
Prefiro ir pela via alternativa.
Enquanto o calendário se renova e o desconhecido se insinua nos dias que virão, resta-nos abraçar o este tempo com confiança e coragem, aproveitar cada oportunidade, aprender com cada obstáculo e celebrar cada pequena vitória.
Afinal, como a canção sugeria, a vida é feita de possibilidades e cabe-nos escolher com que olhos queremos ver o que aí vem.




















