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Há figuras que passam pela História como protagonistas de uma determinada época. E há também figuras que moldam a própria época onde se inserem à sua imagem. Donald Trump pertence, claramente, à segunda categoria. Independentemente do juízo político e pessoal que cada um faça sobre ele, é hoje impossível compreender o estado do cenário geopolítico mundial, a polarização das democracias liberais e a transformação do debate público sem reconhecer o seu impacto profundo. Por isso, se pensarmos na distinção de personalidade do ano, acredito que ela serviria para identificar quem mais marcou o curso dos acontecimentos à escala global. Trump é, sem dúvida, o nome que melhor se enquadra no que descrevi.

O impacto de Trump não se mede apenas pelo cargo que ocupa, mas sim pela forma como foi capaz de reconfigurar o modo de fazer política. A sua ascensão quebrou consensos que pareciam sólidos. De facto, Donald Trump mostrou que a sua forma de comunicar, de confrontar, pode superar tudo o que sejam as estruturas partidárias tal como as conhecemos. A sua capacidade de mobilização é, de facto, avassaladora.

A partir da figura de Donald Trump, discurso político à escala global tornou-se mais agressivo e cada vez mais personalizado. líderes políticos procuram imitar o estilo e forma de comunicar do presidente dos Estados Unidos da América, nomeadamente na retórica da falta de legitimidade das instituições, nas suspeitas permanentes sobre a imprensa, os tribunais ou parlamentos. O efeito de contágio é real e, de facto, alterou o clima democrático, aumentou a intolerância e normalizou formas de linguagem política que antes eram tidas como marginais.

Todavia, importa referir que o impacto de Trump não pode ser encarado apenas como algo negativo. Para muitos, representa uma rutura com sistemas políticos que pareciam fechados, distantes e incapazes de responder a frustrações reais das pessoas.

A erosão da confiança nas instituições, a relativização da verdade como factual, a normalização dos ataques a figuras e instituições independentes e a ideia de que as derrotas eleitorais se podem dever a fraudes fragilizam, por definição, os pilares fundacionais das democracias liberais.

A política está mais emocional e menos racional. Mais mobilizadora, mas mais divisionista.

Trump não é apenas um líder nato. É também um fenómeno político e mediático que influenciou todos os líderes mundiais. Mudou a forma de comunicar, alterou as regras do jogo democrático, mudou aquilo que é ou não tolerável. Molda, de forma indiscutível agendas e divide sociedades. Poucos, em tão pouco tempo, conseguiram mudar tanto como ele.

É necessário reconhecer-lhe o impacto, que me parece ser inegável. Redefiniu o léxico da política contemporânea, reconfigurou mapas e alianças e obrigou as democracias a enfrentarem as suas próprias fragilidades. Ignorar o fenómeno Trump, seria negar a realidade. Representa aquilo que muitos temem, aquilo que outros celebram e idolatram e aquilo que todos são obrigados a lidar. E é precisamente por isso, goste-se ou não, que é a personalidade que mais marcou o mundo político neste ano de 2025.

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