Joaquim Machado, Deputado do PSD/Açores ALRAA
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O exaustor parece reduzir a sua missão, deixando propagar o aroma pela casa. Cheira a bolachas e a chocolate quente, preparados num robot de cozinha. A humidade da rua convida ao aconchego da casa, e da alma, nestes dias pequenos que antecedem o Natal. Escrevo estas linhas dois dias antes da consoada. Quase tudo está pronto para o dia do Menino – a árvore e o presépio, as prendas, as guloseimas, as iguarias para a ceia e o almoço da festa. O neto mais velho empresta a pureza que só os pequeninos verdadeiramente têm nas horas que correm, questionando-se sobre as ofertas que lhe caberão em sorte. Talvez no próximo ano já se tenha desfeito o segredo da origem dos presentes e a falta dessa magia comece a ser compensada por outros sabores do Natal.

Também um dia fomos assim, ingénuos, puros e expectantes e pulámos de alegria com os brinquedos e jogos, deixados no sapato sobre o fogão no regresso da Missa do Galo. Nunca foram muitos. Mas sempre bastaram para desenhar sorrisos, dias a fio. Uma lancha com motor, um carro de bombeiros, um pequeno rádio a pilhas… até uma pistola do faroeste, para jogar aos cowboys, blusas, meias e calças que renovavam a indumentária nos meses seguintes.

Nesse tempo longínquo a casa era tomada pelos aromas da criptoméria engalanada, do cedro nas jarras, do farelo no presépio, dos cozinhados preparados com antecedência, do “desfeito” da avó Augusta, uma mistura de massa sovada, pão, carnes, canela e outras especiarias. Não voltei a saborear coisa igual, desde que partiu há 40 anos.

Daqui a muito tempo, o que dirão os meus netos?

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