O Natal é, por tradição, o tempo em que suspendemos o ruído do quotidiano para fazer balanços e formular desejos. Acendemos luzes, trocamos votos de paz e de prosperidade e repetimos a promessa de que “para o ano é que vai ser”. Mas este ritual que é reconfortante, não nos pode dispensar da responsabilidade de olhar o país e o mundo tal como são. E não apenas como gostaríamos que fosse. Porque há sombras que não se dissipam com iluminações festivas, e uma delas é a fragilidade crescente do nosso compromisso com a própria democracia.
Entramos na quadra natalícia com um conjunto de alertas que não são retóricas nem ideológicos, vêm de dentro do Estado e dizem respeito à capacidade real de Portugal garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. Há, efetivamente, uma dificuldade crónica do sistema político transformar prioridades proclamadas em políticas públicas sustentáveis. Quando o Estado reconhece as suas lacunas, mas não constrói respostas estruturais, o que falha não é apenas o planeamento, mas a própria credibilidade democrática.
A democracia não vive apenas de eleições livres. Vive de instituições que funcionam de forma correta, de serviços públicos que cumprem, de cidadãos que sentem que o Estado existe para mais do que apenas anunciar intenções. Cada incapacidade que se prolonga no tempo, cada promessa adiada, cada plano estratégico não concretizado corrói um pouco mais a confiança de todos nós na democracia, criando assim um terreno fértil onde crescem os discursos simplistas, autoritários e antissistema. No fundo, aqueles que prometem resolver tudo em nome da ordem, mas que acabam por esvaziar a liberdade.
É precisamente aqui que 2026 ganha forma, não apenas como um número no calendário, mas como um teste político. O país entrará em 2026 com o desígnio da escolha do próximo presidente da república. Não basta desejar crescimento, mais justiça social ou mais segurança. É preciso aceitar que estas metas exigem um Estado competente, previsível e respeitado. Defender a democracia não pode ser apenas exercer o direito de voto, mas sim exigir coerência, escrutinar decisões e acima de tudo recusar a normalização da ineficácia.
Por isso, nesta quadra, os votos que realmente importam no que concerne à política são os da exigência democrática. Que este Natal nos traga lucidez e que 2026 nos encontre mais preparados, mais exigentes e mais conscientes de uma verdade simples e incómoda. A democracia não se herda, cuida-se e constrói-se todos os dias.
Um feliz Natal a todos.




















