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Em 1984, foi cunhado o termo “novilíngua”, expressão que se popularizou e que serve para explicar um fenómeno muito atual. Quando alguém fala, o que ouvimos não é o que devemos ouvir. Ou seja, uma palavra vale apenas pelo valor que lhe é atribuído pelo poder instituído. Se te disserem que “verde” significa “azul”, é assim que o deves entender. “Verde” passa a “azul”, da mesma maneira que um discurso sobre a destruição do sistema público pode passar a homilia humanitária. Bastará, para o efeito, controlar a narrativa, dentro da comunicação social.

Face ao exposto, regressemos a dezasseis de dezembro, na passada semana, quando o ministro da Educação, Ciência e Inovação decidiu dar uma lição sobre “novilíngua” a todas e todos nós. Durante um discurso sobre o processo transformista que almejam aplicar ao sistema de ensino superior, e às suas obrigações sociais, Fernando Alexandre começou por falar sobre a necessidade “misturar classes” nas residências universitárias. De acordo com o economista, é preciso acabar com a segregação económica e com o escalonamento, porquanto esses conceitos são armadilhados pelo sistema e prejudicam os mais vulneráveis.

Por momentos, parecia que discursava num congresso nacional do PCP, e só lhe faltava uma foice e um martelo no pódio para complementar o cenário. A verdade, todavia, é mais dura. Logo a seguir, e ainda durante essa linha de pensamento, Fernando mudou a sua postura e pediu a atenção para que se compreenda uma realidade: os serviços públicos, sejam eles residências ou hospitais, degradam-se quando são utilizados pela população pobre. Isto não fui eu que inventei, nem a Inteligência algoritmada que debitou. Está lá, no vídeo partilhado pelo senhor ministro na página oficial do seu ministério.

Aquilo que aconteceu foi que o ministro discursou de forma humanitária, para poder cobrir o rasto do que se seguiu, onde apelou a uma mudança de mentalidade que deseja colocar em prática, conjuntamente com os amigos à extrema-direita. Uma espécie de Processo Reacionário Em Curso, que se releva em cada frase dita com sentimento, e não lida nos papéis preparados pela assessoria. Ao misturar hospitais com residências universitárias, Alexandre descaiu-se, ligeiramente. O problema não é a “gestão”, como se veio mais tarde desculpar. O problema é o serviço público. Que precisa de ser suprimido, para que venham os santíssimos privados tomar conta do assunto e parir a realidade neoliberal sonhada. Esta é a madrugada pela qual eu esperava, com medo.

Todo o seu discurso levou-me a relembrar a célebre frase de Caco Antibes, “Eu tenho horror a pobre!”, numa série cómica brasileira. Quem diria que Caco Antibes, nos anos 90, iria satirizar o governo português, de 2025?

Certo é que Pedro Passos Coelho nunca foi derrotado. Foi apenas empurrado para as sombras, pela união retumbante de uma esquerda que já rareia. Agora, regressado das brumas, o cavaleiro traz consigo o Apocalipse das classes pobres em Portugal, pelas mãos da tenebrosa ministra da saúde e do malicioso ministro da educação. Os dois pilares do nosso sistema social, corroídos, assim sem qualquer problema, no espaço de meses.

A nação revoltou-se. Depois da greve geral que Leitão não viu, surgiu um movimento espontâneo de revolta popular contra as declarações de Fernando Alexandre, tal como já tinha surgido, antes, contra as palavras de Ana Paula Martins. Por todo o país, em esquinas e publicações, pessoas manifestaram indignação genuína, perante tamanha desumanização promovida por um dirigente máximo do atual governo de Portugal. E o senhor ministro, que para além de formado em economia, também percebe de chico-espertice, avançou com o verdadeiro objetivo da sua manobra de diversão.

Em poucas horas, já estava na televisão a revoltar-se com a forma como foi tratado, quando queria apenas humanizar os pobrezinhos, coitadinhos. O sistema é que oprime os pobres e não lhes dá condições. A solução não passa por melhorar o sistema, que ele atualmente até controla. Passa por construir novas maneiras de meter lá ricos, porque se estiverem “jovens de bem” a morar nas residências elas vão ser mais cuidadas. Toda a gente sabe que o sistema olha com mais atenção para o filho do doutor do que para a filha do pescador. E toda a gente sabe que não há nada a fazer. É aceitar. Um pobre é um pobre. Um rico é poder em potência.

De repente, o que foi dito já não é o que foi dito. A novilíngua, na verdade, diz-nos que o ministro estava a proteger as pessoas e não a atacar os pobres para dar mais oportunidades aos amigos ricos. Paralelamente, ainda teve tempo para ajudar a amiga, com uma facada nos hospitais. Mas isso não aconteceu. Está fora de contexto! Qual contexto? O que eles dizem. Quem manda é que sabe qual é o contexto.

Há um erro que cometeram. Um ligeiro detalhe, que não está a negrito no papel, para passar despercebido. No comunicado emanado pelo ministério de Fernando Alexandre, sobre esta polémica por eles criada, está uma referência ao que eles desejavam fazer, mas não conseguiram. Criação de mais lugares para não bolseiros nas residências universitárias. Ali ainda não conseguiram aplicar a novilíngua, e percebemos o que querem mesmo. Essa proposta foi reprovada, pelos pareceres técnicos e pela concertação social. Por isso, importa trazer a polémica a público. Importa fazer do ministro um mártir, descontextualizado. Ele, que só queria misturar pobrezinhos com remediados, para todos salvar. Se é o que ele diz, deve de ser verdade, não é?

A verdade, é que este é o governo que Passos Coelho sonhou quando desejou ir além da Troika. Preparam-se para destruir o que resta do SNS e do sistema público de ensino. Aplicam-se propostas de fita-cola, para dar migalhas aos pobres, enquanto se vai construindo, com a outra mão, um templo ao capitalismo desregulado, onde vale tudo, inclusive arrancar olhos. Eles estão prontos para nos destruir. Só nos resta o mesmo de sempre. Na rua, ombro a ombro, contra a novilíngua. É preciso continuar.

Boas festas, e que a nossa prenda ao país seja dizer a estes déspotas que não passarão.

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