A situação está complicada, é verdade. Aproxima-se o Natal, a passagem de mais uma volta ao Sol e tudo o resto. E a situação está muito, muito complicada. Estes debates para as presidenciais são de tal forma desgastantes que dou por mim a desligar a televisão com lágrimas de frustração, depois de ouvir frases tão abjetas que nem há como as classificar. No final da passada semana, aqui nas nossas ilhas, ouviram-se coisas obscenas que nem me permito replicar nesta minha reflexão. A coisa está verdadeiramente complicada.
E é, nesse contexto invernal, e particularmente infernal, que Manuel João Vieira surge, entre as brumas. Há muitos anos que prometia esta caminhada, e falava em chegar montado a cavalo. Penso que até ao final da sua campanha ainda o irá fazer. Para já, tem aparecido com farda militar abrutalhada, pins de super-homem falsificado, barba por fazer, voz arrastada e discurso popularucho. É uma amálgama de todas as pessoas que se candidatam à presidência do nosso país, caricaturadas de forma assustadoramente realista, ainda que não se deixe perder o verdadeiro sentido da sua missão, que é encantar e mostrar como é fácil enganar o português.
Manuel João é um artista, filho de famílias de classe média remediada, que cresceu entre palcos maltratados, cabarets da coxa, livros de filosofia e materialismo dialético. Não o conheço pessoalmente, nem nunca falei com ele. Temos amizades em comum, claro está. E é por isso que afirmo, sem grandes dúvidas, que é um homem bastante inteligente, talentoso e de convicção no seu absurdo surrealismo. É, por outro lado, um mediano artista de variedades, resmungão sem solução, capaz apenas de se amar no ato de se autodestruir. É um homem do extremo desequilíbrio que agora joga, pela primeira vez, num palco que está à sua altura.
É que a candidatura de Vieira vem sendo preparada praticamente desde o começo do milénio. Como quem corre uma maratona, muito do que ele agora afirma na televisão, já tinha afirmado desde o começo da sua viagem. O vinho canalizado e o Ferrari para cada português são ambições antigas. Manuel João não mudou muito. Quem está diferente é o nosso país. Americanizou-se e, depois, isso levou-nos à total decadência moral. O americanismo, também chamado de fase terminal do capitalismo contemporâneo, é uma doença tóxica que se espalha em formato de pandemia há muitas décadas. Infetados que estamos, a próxima evolução é a que nos traz a candidatura de Manuel João: o fundo do poço.
O candidato Vieira não é um futuro presidente, como é óbvio. Desde logo, é o primeiro a admitir isso, quando afirma que só desiste se for eleito. O candidato Vieira é um espelho de uma parte do nosso país que sempre existiu, mas tinha vergonha de aparecer. É o grunho, que depois de cinco copos de vinho vai falar com a senhora jornalista e cantar uma modinha em horário nobre. É o canta-autor que se veste de forma desgrenhada, propositadamente, para aparecer contra um sistema que nem conhece. E é, por estes dias, o novo salazarista, regressado da tumba de Santa Comba, para nos vir dar lições de imoralidade e maus costumes. Manuel João, enquanto personagem e performance, representa tudo isso e muito mais. É um espetáculo de surrealismo de grande nível, que está a ser mal interpretado por muita gente.
Não é difícil dar umas voltas por aí e encontrar quem diga que vota no Manuel João, na primeira volta, e no Ventura, na segunda. Há demasiados assim. E algumas também, lamentavelmente. Acho que não haverá mal algum em votar no Vieira na primeira volta, desde que o façam com o sentido verdadeiro da intenção. As eleições presidenciais são, em geral, uma farsa montada pela direita, que a esquerda raramente soube desvelar a tempo. Com Seguro na liderança do extremo centro, Manuel João pode nem ser mal pensado, como forma de afirmar que tudo o resto é igualmente ridículo. Não pensem é que Ventura está no mesmo cumprimento de onda.
Isso, para além de ser ingénuo, é perigoso. Cair na tentação de ver um gajo como Vieira a discursar e pensar que ele está a falar a sério revela uma ignorância generalizada, travestida de crença pessoal e tudologia que entope as nossas redes sociais. Ventura é Manuel João, se Vieira fosse um parvalhão e não um ator e artista. Não perceber isso, é arriscar perder o país, ainda mais do que já está perdido.
Manuel João Vieira é um trovador errante que fez de Portugal um movimento de surrealismo, agora finalmente glorificado com a sua candidatura oficializada. Quando o Livre e o Bloco parecem estar com dificuldades nas assinaturas, prontamente desmentido nas redes sociais, o nosso agente provocador levou mais de doze mil ao tribunal para oficializar a sua corrida. E é esse o maior símbolo do candidato Vieira. O país vai mal. A situação está complicada. Estamos a bater no fundo. Que esta candidatura permita ver a nudez dos nossos reis, para que daqui possamos começar a levantar-nos deste duro chão aonde caímos. Obrigado, Manel. És, de facto, um gajo muita fixe.




















